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Crónica: Debita Nostra CCXLI

Luís Costa - 08/08/2024 - 17:21

"A Encíclica (Rerum Novarum) sobre a ‘questão operária’ é, pois, um documento sobre os pobres e sobre a terrível condição à qual o novo e não raramente violento processo de industrialização reduzira enormes multidões. Também hoje, numa grande parte do mundo, semelhantes processos de transformação económica, social e política produzem os mesmos males.” (João Paulo II, “Centesimus Annus”, pp. 28).

Não se pode dizer, face à precariedade no ensino da História, que seja estranho o atual “apagão” na memória daquela que foi, seguramente, a pior das crises por que alguma vez passaram as nossas democracias liberais.

Mas talvez mais relevante, na suposição da sua conveniência, seja um outro fenómeno, de repercussões próximas, que aqui importa registar: o do impacto político daquela crise, com cujas ‘ondas-de-choque’, mesmo que desvanecidas, ainda hoje nos confrontamos.

É que, pela sua contundência, ela acabou por subverter toda a arrumação política até aí existente. E se os partidos políticos, nascidos da ordem liberal, se dividiam por assunções marcadamente adjetivas, frequentemente derivadas de divergências quanto à afetação do espólio do Antigo Regime, passaram então a organizar-se em função de algo bem mais substantivo: a “Questão Social”.

Num leque e dispositivo que, grosso modo, chegaram até aos dos nossos dias, ainda que, pela leitura dos discursos e, sobretudo, da argumentação dos seus ‘pais-fundadores’, sejamos levados a suspeitar da viva agitação que lhes irá nos túmulos.

Desde logo, pela remanescente força daquilo a que deliberada e firmemente se opunham e a que, inequivocamente, atribuíam a mais insustentável das conflitualidades, na “violência” da sua devastação humana: a ‘lógica’ liberal que, após duas grandes guerras, seria assim deixada de poisio.

Também é certo que, independentemente de tais raízes, ou das suas nomenclaturas, não será possível responder aos problemas de hoje com um caderno de encargos de há cem anos. Do que não estamos, porem, dispensados é de nos confrontarmos com a gravidade da presente conflitualidade social, de uma extensão tão planetária quanto a da ‘lógica’ que lhe subjaz.

E de, face ao seu incómodo, percebermos que, embora condicionados, não reagimos de igual forma perante àquilo que nos constrange ou nos compraz, se não ficarmos de todo indiferentes ao que permanece daquilo que já passou: “semelhantes processos” que “produzem os mesmos males”. Pondo desde logo a hipótese de que decorram da mesma lógica e de princípios sobre os quais já secularmente se doutrinou.

Mas admitindo também a hipótese de que daí advenha a sua resistência. Do natural e agora legitimado benefício dos que partem em vantagem (poder), numa competição que ignora, se é que não despreza, a equidade. E, então, melhor ilude as razões desta recorrente conflitualidade e do problema estrutural (relativo, mas cumulativo) da pobreza, já que é da acessibilidade e disposição das unhas que fundamentalmente depende o toque da guitarra

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