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Crónica: Debita Nostra CCXLVII

Luís Costa - 07/11/2024 - 9:00

“O atentado (contra Trump) é um claro exemplo da crescente violência na política norte-americana, mas as discussões incessantes sobre o que aconteceu dão conta de uma outra crise profunda em curso no país e nas demais sociedades ocidentais: uma crise epistémica na democracia. O ambiente digital é avesso à disciplina da verificação, e a destruição da noção de que existem factos é mais uma prova de que tudo se tornou uma questão de opinião.” (Rita Figueiras, Público, 17-07-2024).

Pode ser que a aversão do “ambiente digital” à “disciplina da verificação” decorra, por inércia, do tempo em que (ser) ‘publicado´ era, só por si, um aval de veracidade, ou, pelo menos, de uma certa ‘autoridade’, com que o próprio meio académico lidava bem. Ou pode ser que ela resulte do conforto com que uma abundância de “likes” hoje permite, em circuitos fechados, superar os sucessos de um qualquer mais formal reconhecimento (DEBITA NOSTRA, CXLIV).

Não me parece é que isso se deva tanto a tudo se ter tornado “uma questão de opinião” (o que a democracia poderia acolher), e à “destruição da noção de que existem factos”, quanto a uma (con)versão das opiniões em factos (alternativos) que o ‘síndroma do individualismo’ veio licenciar (DEBITA NOSTRA CCXLVI).

E é aqui que, ainda no ‘reino’ das opiniões, se não pode recusar a hipótese de que tal se inscreva num longo processo histórico de progressiva submissão do ‘social’ ao ‘individual’, com que se operacionalizou uma totalizarização do mercado e se fez da democracia (Schumpeter) o seu ramo político (DEBITA NOSTRA CCXXXVIII a (CCXLVI).

Ora, não havendo dúvidas quanto aos ‘valores’ que presidiram à mais recente globalização, e ao seu desdém pela democracia de quem nunca a teve, abrindo as portas à emergente pretensão de uma “nova ordem internacional”, convém que não esqueçamos o que ela por cá deixou.

Num menosprezo pela democracia de quem já a tinha, o fatalismo liberal separou-nos entre ganhadores e perdedores, culminando uma secular tarefa de progressiva dissolução de qualquer sentido gregário que lhe permite sugerir, à ‘evidência’, que o social “não existe”.

A ideia de um integrador “bem-comum” perdeu-se, assim, na viciada concorrência dos desiguais interesses políticos, preferencialmente camuflada com o véu de uma elitista, exclusiva e pretensamente ‘não-ideológica’ definição do “interesse nacional”.

E, com ela, se foi todo um conjunto de referências simbólicas, bem como a capacidade de nelas (re)descobrir um sentido-comum. Uma “anomia”, de tal maneira legitimada e sem freios, que tanto premeia uns quanto despreza outros: os deserdados da sua terra que se hão de agarrar à memória que dela ‘conservam’ e (res)sentir da ‘ameaça’ dos “estranhos” que, supostamente, lha vêm roubar.

Tudo pela conveniente entrega ao primado moral das escolhas individuais que, deste modo, pouco resiste à violência do individualismo e ao seu despudorado linguajar.

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