... “a vantagem ética e prática do pluralismo democrático está precisamente no pressuposto de que ninguém tem mais do que uma noção muitíssimo parcelar da realidade, e que mesmo o mosaico infinito de todas as nossas perceções particulares é uma aproximação deveras insuficiente a isso a que chamamos a ‘verdade’. (...) Nada disto tem a ver com niilismo, relativismo ou oportunismo. As ideologias políticas não são quadros de valores substantivos (...). As ideologias são meios, não são princípios ou fins.” (Francisco Mendes da Silva, PÚBLICO, “Contra as Ideologias”, 14-07-23).
Creio que o grande problema com as ideologias (que nunca são estritamente políticas) reside no facto de que, não correspondendo a “quadros de valores substantivos”, nem por isso são ‘formas’ dispensáveis, ou sequer descartáveis, de aproximação à “realidade”. Não o fazendo nós como ‘tábua-rasa’, ou como omnividentes, por mais que nos pareçam recusáveis, é destes parcelares “meios” que nos servimos para não menos parcelares ‘fins’.
E esta é a primeira dificuldade. Por um lado, precisamos de um consistente ‘sentido do mundo’ (mundividência) para nele nos sentirmos (con)sentidos (integrados). Por outro, ‘construímo-lo’ em trajetórias de vida que nos posicionam e dão um singular ângulo de visão que, à semelhança do mundo físico, nos condiciona e limita em tal perceção. Tricotando-a com tudo aquilo que somos (identidade pessoal), embora no partilhado ‘conforto’ de outras idênticas (identidades sociais). Permitam-me aqui o redutor exemplo do desporto, em que dois adeptos, fisicamente lado a lado, mas de clubes distintos, facilmente divergem numa ‘visão’ não-física, do que acabou de acontecer
Ora, tais ‘visões’ parcelares são ‘olhares’ em disputa, não só porque nelas se jogam identidades (sobrevivências), mas também porque ambicionam o global, tanto na abrangência como no reconhecimento. Mas ‘olhares’ desfrutados a partir daquelas posições distintas, quer no que se refere à ‘geografia’ humana, quer no que diz respeito às capacidades (vantagens) de aquisição, ação e influência (poder). O que também as torna diferentemente permeáveis (e mais ou menos compósitas) às respetivas vivências, naturalmente, mas ainda aos muito desiguais poderes de persuasão e legitimação.
Situação (disputa) tanto mais agrava(da)nte quanto o próprio ‘grupo’ social se tiver estruturado num modelo de relações sociais de que uns ‘saiam’ claramente beneficiados e outros nem tanto.
Assim, se, como noutros campos (sem “niilismo, relativismo ou oportunismo”), for pela acareação destas visões parcelares (argumentadas à exaustão) que garantimos a ‘promessa’ de uma visão mais global, tal não se fará sem custos. Não de contrariar as ideologias, mas o de uma ‘sofrida’ e improvável atitude de as relativizar na sua vocação de identitárias mundividências.
E é aqui que o pluralismo democrático pode ajudar. Não enquanto “mercado” (Schumpeter) onde cada um há de querer fazer valer o seu ‘produto’. Mas se, nesse confronto, não se tiver já perdido de todo o sentido de equidade.