“Tínhamos perdido a nossa pátria, o que significa que perdêramos a familiaridade com a nossa vida quotidiana. Tínhamos perdido os nossos empregos, o que quer dizer que perdêramos a confiança de quem sabe ter alguma utilidade neste mundo. Tínhamos perdido a nossa língua, o que representa que perdêramos a naturalidade das reações, a simplicidade dos gestos, a expressão não afetada dos sentimentos. Tínhamos deixado os nossos parentes nos guetos polacos, e os nossos melhores amigos tinham sido mortos em campos de concentração, e isso significa a rutura das nossas vidas privadas.” (Hannah Arendt, 1943, “Nós, refugiados”, Antígona 2021).
Talvez por estarem reduzidas à sua expressão mais simples, não consegui identificar, nas nossas cerimónias do 5 de outubro, quaisquer simpatizantes dos cruentos atentados da Carbonária. Consciente, embora, de como o carácter intensivo dos atos terroristas nos afeta e lembrando, logo a 7 de outubro, quanto a manifesta ‘cegueira’ e barbárie do que aconteceu em Israel nos merece absoluta condenação.
É, porém, indispensável, no meu entender, a procura do discernimento que nos previna de um regresso civilizacional à “Lei de Talião” e que, neste mesmo sentido, se tenha em conta que tais atos não podem legitimar outras atrocidades, ainda que mais extensivas.
E se todas elas prosseguirem no intuito de obstar ao encontro de uma solução pacífica para a Palestina, como a de dois Estados soberanos, que isso nos não impeça, desde logo, de uma igual condenação do Hamas e dos assassinos de Isaac Rabin e seus cúmplices. Mas também do mais recente massacre a que se vieram submetendo estes ‘exilados’ na sua própria casa, mesmo que sob o ínvio pretexto de que eles e o Hamas se não distinguem. Metendo até “no mesmo saco” todos os que com eles se solidarizavam, numa perversa vulgarização do ‘terrorismo’ que, de resto, também já, em tempos, contemplou “os parentes nos guetos polacos” de Hannah Arendt.
Percebendo, assim, como, neste momento, tal discurso se tece, objetivamente, em favor das tentativas de ocultação do que ali se passou, aos nossos olhos, e da criação de obstáculos a uma qualquer “solução” duradoura que não seja pretensamente “final”.
Sob pena de remontarmos à cruel tomada da Palestina descrita em livros do Pentateuco e no de Josué, ‘jogando’ ao ‘jogo’ de quem começou primeiro (DEBITA NOSTRA CCXXII). E da escalada que desagua naquela “banalização do mal” para cuja extensiva perigosidade Arendt nos alertou.
Mas é ainda neste seu relato da condição de refugiado, ressalvando-lhe o carácter intensivo, por contraposição à do imigrante que busca a sua sobrevivência económica e a dos seus, geralmente tida como mais extensiva (elástica), que podemos encontrar um outro critério.
O que nos permita distinguir entre quem efetivamente quer regular a situação vivida dos imigrantes e quem deles se aproveita como instrumento de deriva política.