Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Crónica: Debita Nostra CIV

Luís Costa - 10/01/2019 - 9:25


"Efetivamente, tais elementos estabelecem linhas de demarcação no interior da categoria mais ampla dos assalariados, induzindo segmentações que, embora raramente assumidas pelos representantes e líderes sindicais, aumentam a confusão entre a defesa dos interesses corporativos de um dado grupo e a proclamação (…) de um mítico ‘interesse’ político em nome da ‘classe trabalhadora’.” (Elísio Estanque, PÚBLICO, 09-01-2018).
Interpelado um dia sobre as consequências do Brexit, lembro-me de ter invocado uma expressão que o meu interlocutor britânico de todo desconhecia: não esperem por sol na eira e chuva no nabal.
Iniciava-se, então, um debate político que em muito ganharia se os paladinos de qualquer “exit” nos premiassem com a clareza das suas indisfarçáveis inflexões. E, já agora, enumerassem as ‘liberalidades’ com que o conseguido acordo deixaria de ser uma punição ao Reino Unido, para efeitos de prevenção. Até lá, funciona apenas um princípio que qualquer iniciado na sociologia não desdenharia enunciar: tudo o que existe gera a sua própria necessidade (DEBITA NOSTRA LXXXVIII).
O mesmo acontece com o (des)acordo que Jeremy Corbyn pretenderia alcançar, à mercê de um vernáculo euroceticismo, muito anterior (1973) à contaminação da U. E. pelos ditames neoliberais.  Se é que a sua posição não é um reflexo de teses novecentistas a que o trabalhismo sempre soube corresponder (DEBITA NOSTRA (CII). Assim, com o conceito estruturante de classe social e o problema da sua operacionalidade face ao desafio de velhos fenómenos identitários e mais recentes consensos democráticos.
Na tradição marxista a identidade da “classe trabalhadora”, processava-se pela passagem de uma “consciência em si” a uma “consciência para si”, secundarizado o tema das demais consciências de classe, face ao objetivo estratégico da “vitória final”. 
Já para Alain Tourraine (“A sociedade pós-industrial”), os vários atores sociais reconhecem-se com uma identidade própria que se consolida no atrito com a dos demais, mas suscitando os compromissos necessários à sobrevivência do próprio campo de interação. O que se revela muito mais consentâneo com o protocolo democrático e as diversas manifestações de identidade.
Ora, o que hoje podemos constatar, é a indigência de uma identidade internacional dos “trabalhadores” perante os particularismos dos seus contextos nacionais. O que poderá explicar esta retração do internacionalismo e a sua defensiva ou calculada fixação dentro de fronteiras (DEBITA NOSTRA LXXIV). Onde a pulverização das situações, entre assalariados, retira substância “à proclamação de um interesse político da classe trabalhadora”. 
Ainda que o “Labour” (‘partido dos trabalhadores’), há muito se tenha desobrigado de confundir ação sindical e decisão política, à falta de outra legitimação que a do Estado de direito democrático.
Quem dirimiria a rivalidade entre os interesses “corporativos”, deixada ao ‘mercado’ das capacidades de reivindicação? Como se conjugariam todos eles com os de outros ‘nacionais’?! 
Ou será que estes se podem jogar borda fora, com os resultados geralmente conhecidos?!  

COMENTÁRIOS