"Continuo a acreditar na Europa — apesar de sentir que está em perigo, dividida entre os tecnocratas e os nacionalistas anti-imigrantes —, mas ela é a grande perdedora nesta luta entre capital global e democracia global. As ideias europeias de igualdade, democracia, liberdade e direitos humanos são reflexo de uma certa visão de uma sociedade justa e livre. Se a Europa se desvanece, se o seu papel se perde, o que a substituirá?” (Da entrevista a SLAVOJ ZIZEK, Público, 07-02-14).
O problema da ‘cartilha estruturalista’ de análise (DEBITA NOSTRA CVIII) é o da intocabilidade do seu modelo analítico, eventualmente agravada por uma irredutível tendência para a bipolarização. A necessidade de arrumar toda a farinha, dispondo apenas dos mesmos dois sacos, facilmente a leva a ensacar farinhas distintas, em prejuízo da própria análise.
Atentemos no impacto de um episódio nosso contemporâneo: a decisão do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, de 1978, de abolição das “Leis da Usura” (Marquette National Bank of Minneapolis versus First of Omaha Service Corp.) e a consequente irrefreabilidade dos mercados financeiros. Ele marca o culminar de uma luta secular com que a ‘modernidade’ definitivamente se sobrepôs a alguns dos equilíbrios característicos das sociedades tradicionais. A saber: o “pecado mortal” da usura; ou alguns mecanismos preventivos de uma excessiva acumulação (DEBITA NOSTRA XCII).
Rompendo, porém, com o liberalismo clássico, naquilo em que este abominava a especulação ou considerava “absurdo” que se confundissem dinheiro e riqueza (Adam Smith, 1776, An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, 1, pp. 416-417). E suscitando, assim, para além de conhecidas questões laborais, uma possível contradição entre pretensões económicas e financeiras. Nomeadamente quando a incontrolabilidade das segundas prejudica os interesses das primeiras: na repartição do rendimento, nos encargos da dívida e suas diatribes especulativas e mesmo em termos de estabilidade social.
São conhecidos os pergaminhos políticos do sistema financeiro, subalternizando a divulgação da democracia à garantia de mais apetecíveis proventos globais. E como terá sempre dificuldade em sufragar, com base na consciência política dos ‘povos’, as sequelas sociais da atual concentração do rendimento, no contexto de uma inédita produtividade.
Daí que, a par de mais capazes lideranças, a defesa de inequívocos princípios democráticos, como sugere o filósofo esloveno Zizek, constitua hoje um reduto em que se entrincheiram as mais legítimas aspirações por justiça social. A que acrescem, na Europa, uma consolidada experiência e uma sensibilidade reivindicativa tributárias de um ‘modelo social’ ímpar, quer em termos de alcance, quer de expressão mundial.
Provavelmente o mesmo cujo rateio solta agora os reflexos defensivos das suas classes médias e, por arrasto, arregimenta os respetivos ‘povos’ às bandeiras de um apelativo populismo. Ele próprio instigado e sustentado por uma verdadeira internacional nacionalista ao serviço de bem mais largos interesses.
E com muito estranhas solidariedades!