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Crónica: Debita Nostra CLX

Luís Costa - 08/04/2021 - 9:18

… “a violência das condições de vida, a necessidade de ser capaz de com ela se confrontar para sobreviver, a exigência de a ela, tantas vezes, recorrer – tudo isto conduz à familiaridade com a rudeza, a aspereza, a violência; leva a incorporá-las na maneira de ser e a desencadeá-las espontaneamente nas formas de agir. Em conformidade, cristalizam-se, como eixos importantes das culturas populares, os valores da força física, da coragem, da resistência à dor” … (A. Benavente et al., “Do outro lado da escola”, 1987, pp. 36).
Uma outra abordagem à ideia de “povo” foi a que resultou das sequelas da “Revolução Industrial”. Da evidência da privação, em largas camadas do “povo”, dos benefícios do recente sufrágio da “vontade popular”. Ou seja, da “Questão Social”, fenómeno tão historicamente relevante, no seu radicalismo, quanto objeto de uma cultivada “reserva mental”.
Inéditos eram, então, não a prosseguida miséria, mas a concentração desse “povo” nos subúrbios dos aglomerados industriais, a sua desamparada proximidade e um consequente crédito de revolta, não politicamente negligenciável
De tão extrema, a situação mereceu uma geral censura e um antiliberal pronunciamento, com múltiplas facetas. Entre as quais, a que nela ‘descobria’ não só uma sofrida legitimidade, como o potencial de uma mudança revolucionária e os seus protagonistas, o “proletariado”, representante dos trabalhadores e do “povo”, em geral.
Representação que resultaria não tanto de uma delegação política quanto da ‘natureza’ das coisas. Num ‘desenho’ em que é possível detetar variadas inspirações, como a que releva do contexto histórico, mas ainda a do subliminar posicionamento face a uma série de controvérsias que, secularmente, tinham vindo a ocupar o mundo ocidental.
Desde logo, a que permitia poder discriminar, entre os humanos, os detentores de uma particular capacidade ‘salvífica’. Ideia dificilmente descartável da tradicional crença judaica num “povo escolhido” e, pelo lado da predestinação, das teses do protestantismo radical norte-europeu.
Mas ainda a do longo debate acerca do ‘veículo’ da ‘salvação’: a fé ou as obras. E se, neste caso, é pelas obras que se presume a reivindicada representação “popular”, secundarizando qualquer endossamento político, também é certo que as obras ‘admissíveis’ são apenas as portadoras de uma ‘fi(deliz)ável’ certificação.
Assim, havendo no proletariado irrecusáveis ‘casos perdidos’ (lúmpen), ele também não dispensaria uma “vanguarda” esclarecida, cuja legitimidade radicava na intransmissível ‘posse’ de uma interpretação “científica” da história e do seu devir. 
Porém, se a História nos alerta para o quanto de crença existe na demarcação de uma ciência ‘definitiva’, é ela própria que contextualiza a ambição “positivista” de tanta convicção. Bem como a atração daquele “povo”, o mais ‘esquecido’ pela “vontade popular”, por uma narrativa em que o uso da força e de outras ‘qualidades’ afins o confirmariam no protagonismo da mudança social.
Resta saber se o contexto prevalece e a atração se mantêm.  

Luís Costa

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