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Crónica: Debita Nostra CLXXIVIII

Luís Costa - 24/02/2022 - 9:32

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/Muda-se o ser, muda-se a confiança/Todo o mundo é composto de mudança/Tomando sempre novas qualidades. (…) E, afora este mudar-se cada dia/Outra mudança faz de mor espanto/Que não se muda já como soía. (Luís Vaz de Camões, séc. XVI).
A democracia e aquilo que na sua presente crise se deve a um encolhimento do “horizonte dos possíveis” e ao desaparecimento do “próprio desejo de o alargar” (DEBITA NOSTRA CLXXV), não podem ser desligados de um fenómeno mais geral que é o da mudança social.
Quer porque a instituição democrática se impôs e legitimou no culminar de um processo de mudança, muitas vezes revolucionária, feita em nome da “liberdade, igualdade e fraternidade” (mesmo que só no que isso representava de afrontamento do Antigo Regime). Quer porque se consagrou como o melhor método de apuramento político das transformações sociais desejadas (reformismo).
O que também significa que ela não esgota a questão da mudança social e que a sua crise não a isenta do risco de promover outras formas de mudança. E que no seu procedimento cabem os que partilham outras convicções sobre o modo de conservação/transformação social a privilegiar (desde a da rejeição da mudança, ou o mudar para que tudo fique na mesma, até à do déficit da democracia). Podendo, assim, gerar algumas subtis incongruências práticas, não dispensando, no seu conjunto, uma reflexão sobre a própria mudança social.
É claro que a mudança mais visível é a que consta de movimentos estruturais/revolucionários cujos feitos a costumam destacar no contexto das posteriores emoções e comemorações (feriados) institucionais. O que, contudo, não deixa de colocar uma outra questão, até pelos efeitos pendulares que o vanguardismo revolucionário normalmente suscita: não se deverá o seu sucesso a uma incompatibilidade entre estruturas político-sociais esclerosadas e a mudança social já efetivamente ocorrida?
Por outro lado, os estudos sobre a relação entre a mudança estrutural e mudança pessoal, de que se alimentam as maiorias, tendem a salientar como a sua adesão é um processo demorado que pode passar pelos progressos entre um nível técnico, um nível informal e um nível formal de mudança (Edward Hall). Ou por uma sequência de ‘aprendizagens’ que pressupõem o alcançável desafio de “zonas de desenvolvimento próximo” (Vygotsky).
Fenómeno que, num contexto de exaltação revolucionária, terá levado Leon Blum (1872-1950) a afirmar que que só o reformismo era revolucionário, por dar tempo aos espíritos para se habituarem.
No fundo, o que, por vezes, parece despontar nas assunções, no sincretismo e nos latentes desfasamentos de algumas trajetórias políticas, é um debate entre a convicção de que as sociedades mudam pelas pontas ou antes pela deslocação do centro.
Só que, neste caso, se é decisivo o lado para que se puxa, não o será menos o modo como se pretende puxar.

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