E já existem sinais culturais de que a luta contra o aquecimento global poderá ser um fator de união em cada comunidade. Nada neste momento tem maior capacidade de mobilização local e global. Este pode ser o tal inimigo externo que todos vão procurar vencer! O tal que nos vai permitir saltar para uma era onde o bem comum ganha uma nova força.” ((J. F. Rodrigues, “A Era do nós – proposta para uma democracia do bem comum”, 2021, pp. 130).
Se as mudanças estruturais pressupõem a adesão (não coercividade) de largas camadas da população, há também que reconhecer que, numa sociedade cada vez mais ‘atomizada’, não haverá melhor ‘cimento’ para tal coesão que o que resulta de uma sentida ameaça comum. A qual, valendo pela sua proximidade ou pelo seu alcance, é percebida como exterior a determinado grupo que, no seu conjunto, irá então procurar fazer-lhe frente.
Um bom exemplo desta (con)vocação é o das situações de catástrofe em que os humanos melhor se apercebem de como, para além das suas muitas diferenças, tanto do seu sucesso, mesmo evolutivo, depende de uma natural capacidade (instinto) de cooperação (Debita Nostra CXXXII).
Destingindo-se, deste modo, das causas identitárias ou fraturantes que, pelos seus fundamentos, radicam no valor da ‘individualidade’, se focam no diferente mais do que no comum e apenas indiretamente podem apontar à estrutura social (Debita Nostra CLXXXIII). Assim também com aquela ideia de que ‘determinada’ parte da humanidade se encontra fadada e especialmente habilitada para proceder à imposição de uma ‘sociedade perfeita’. Convicção que, contra os seus próprios princípios, se fez crença, apesar dos sucessivos desaires e da reconversão social e contraditória dependência (sempre a carecer de esforçados, mal sustentados e pouco flexíveis defensores) dos seus indigitados paladinos. Mesmo que, para alguns dos seus teóricos, o caminho não fosse o do fechamento, mas o da abertura a vastos setores da sociedade, numa “hegemonia” adquirida pelo convencimento (A. Gramsci).
É que ao invés de fomentar as oportunas mudanças sociais, pode mesmo vir a dificultá-las, ao fazê-las passar pelo inevitável crivo de predeterminados e rígidos enquadramentos mentais.
Será o caso da crescente “capacidade de mobilização local e global” contra o ‘inimigo’ do sobreaquecimento, num planeta em que o excesso de cinquenta mil milhões de toneladas de gases de estufa são anualmente lançados na atmosfera. Em imparável vertigem por um compulsivo e infindável “crescimento” que, malgrado alguma circunstancial cosmética, já vai pondo em risco a manutenção da nossa indescartável “casa comum”.
Situação a que, como é evidente, os jovens estão manifestamente sensíveis e na particular predisposição de analisar em profundidade, enfrentando as suas posteriores consequências.
Não será é muito provável que o façam na expectativa de que outros protagonistas venham primeiro subverter as estruturas sociais, segundo um catálogo que não prima pela atratividade.