Em última análise, uma linguagem mais rica é essencial para a capacidade de criticar construtivamente. Muito como na medicina, a identificação de erros de juízo é uma tarefa de diagnóstico, que exige um vocabulário preciso. O nome de uma doença é um anzol em torno do qual é preso tudo o que se sabe acerca dela, incluindo as vulnerabilidades, os fatores ambientais, os sintomas, os prognósticos, os cuidados.” (Daniel Kahneman, “Pensar Depressa e Devagar”, 2011, pp. 550).
Certamente que a referência a Zygmunt Bauman (“Consuming Life”, 2007) nos permite perceber como a “sociedade de consumidores” abriu caminho a um novo tipo de relações sociais e de comunicação favorável ao populismo (DEBITA NOSTRA CV).
Mais importante, porém, é compreender como a confusão que nela se faz entre as características do sujeito consumidor e as do objeto de consumo se torna um obstáculo a qualquer outra forma de relacionamento, nomeadamente no campo político. Num duplo movimento: o atrofiamento da reflexão e o esgotamento da produção políticas.
Comecemos pelo primeiro. Os padrões de comportamento próprios da sociedade de consumo condicionam o cidadão enquanto consumidor, mas também enquanto produtor. Desde logo, porque o confinam a um procedimento (linguagem) limitado, mas com uma vocação totalizante.
Não só a linguagem é a do comum e eficaz, como é também aquela em que tudo deve e pode ser dito. O recurso a outras formas decorre de (extra)vagâncias bem-pensantes, de caprichos ou pretensões de erudição que um velho aforismo já condena: “primum vivere, deinde philosophare”! Ou, como menos pretensiosamente se diria: filosofa para aí, que eu bem sei a linhas com que me coso!
Assim, à formatação do mercado, dos instrumentos tecnológicos e da dimensão aceitável (número de carateres), vem juntar-se a dos dicionários de bolso e a do ‘pronto-a-vestir’ vocabular. O problema é o da interdependência entre forma e conteúdo, vocábulo e conceito, linguagem e pensamento, com que este se atrela ao “pensar depressa” de que fala Kahneman (Nobel da Economia, 2002), no seu “Pensar Depressa e Devagar”.
Não sendo nenhum dos dois “sistemas” dispensável, a linguagem do imediato ameaça-nos com mecanismos psicológicos que podem levar a que “facilidade cognitiva” se confunda com coerência, “boa impressão” com certeza e “familiaridade” (repetição) com verdade.
Ao ponto de ser muito mais plausível que uma galinha tenha quatro pernas do que três (pp. 87).
Numa cultura do ‘instintivo’ em que o populismo tão bem se move e para onde empurramos a democracia, como se esta não fosse um fruto da reflexividade. Ou pudesse sobreviver à espiral em que o simplismo da linguagem apela à rarefação do pensamento e esta ao doseamento do comunicável, já que a autossatisfação consumista renuncia a qualquer esforço entre o desafiante e o alcançável.
Mas, com o condicionamento da reflexão, que fizemos à capacidade de produção?!