Estas narrativas (nacionais) envenenaram profundamente o clima político, já que prestam exclusiva atenção ao próprio destino e inviabilizam um debate sem o qual nenhuma compreensão “de e pelo outro” se pode ter - abandonando qualquer sensibilidade às ameaças que a todos igualmente nos afetam e, sobretudo, a prospeção de políticas proativas que possam cuidar dos assuntos comuns”... (Tradução livre de J. Habermas, “New Perspectives for Europe”, Humanities College, Goethe University, Frankfurt, 21-09-18).
A questão fundamental já não é agora a de que, na “sociedade de consumidores” (Bauman, 2007), se tenha desenvolvido uma sociabilidade favorável ao populismo (DEBITA NOSTRA CV, CVI e CVII).
Relevante é a consequente debilidade das lideranças democráticas, minadas na sua capacidade de reflexão, circunscritas aos ditames do ‘nacional’, do massivo e imediato e impelidas a adotar-lhe as formas (linguagem). Rasando, assim, a emergência de quadros políticos capazes e racionando o pensamento critico/reflexivo de que, por definição, as democracias se sustêm.
É possível que, em sociedades democráticas, esta reflexividade as pudesse levar a aceitar períodos de austeridade, em nome de um eventual bem-maior. Não na “sociedade de consumidores”. Muito menos quando nela a banalização do método democrático se substituiu aos seus fins, circunscrevendo a democracia a uma inevitável opção entre variantes de uma mesma receita económico-ideológica, formalidade em que o populismo se avantaja e reforça.
Ora, é desta fragilidade que a Europa se ressente, reeditando fronteiras perante os mais ‘extravagantes’ embates, como o do afluxo de refugiados. Matéria em que a menor capacidade reflexiva lhe diria que nem a crise se despoletou com as imigrações, nem foi no seu auge que estas lhe passaram a servir de pretexto.
A crise resultou das dívidas soberanas, da sua dificuldade em corresponder aos encargos de um ávido e descontrolado sistema financeiro. O mesmo que fomenta a mais desigual distribuição de rendimento de que há memória, razão dos mais gravosos conflitos por que a humanidade já passou.
São estas dívidas as que melhor garantem um suporte produtivo para tão inimputáveis quanto especulativos proventos e só esse aval lhes mantém o nome. Não porque os Estados tenham renunciado a uma soberania formal, mas porque nada mais podem contra este secular ardil a que, por instigação, necessidade ou descuido, se entregaram. Da mesma forma por que se lhes escapou uma fiscalidade de milhões e milhões de euros, com que se sustentaria o mais ‘generoso’ dos modelos sociais.
Já vemos a quem interessa a debilidade das lideranças democráticas, a rarefação da sua capacidade de reflexão/inovação, os tão confrangedores quanto teimosos arremedos de democracia. Ou a focagem da crise a partir das vivências e do competitivo olhar das opiniões públicas nacionais, bem como a cartilha de um estruturalismo que, à mingua do bordão das classes sociais, é agora aos ‘povos’ que distingue entre credores e devedores.