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Crónica: Debita Nostra CXCII

Luís Costa - 08/09/2022 - 10:08

A preocupação atual com a qualidade deve-se a várias razões: um certo pessimismo quanto aos efeitos do crescimento da escolarização; a necessidade de estabelecer um balanço face ao exame crítico do público; a dificuldade que as reformas educativas têm encontrado na transformação das práticas pedagógicas; a concorrência internacional no conjunto dos resultados escolares, a necessidade de mão-de-obra qualificada, entre outras razões”. (Parecer n.º 3/93 do C.N.E., 15 de fevereiro de 1994).
Seria certamente redutor atribuir à escola, e à mais divertida faceta das suas pedagogias não-diretivas, o princípio “lúdico e de prazer” que grassou pelas nossas sociedades. E que há de ter contribuído para que nelas se reaja com “depressão, torpor e fúria” ao menor “avanço das contrariedades” (DEBITA NOSTRA CXC).
O que não invalida a necessidade de que se pondere o quanto tal perspetiva pode ter agravado a ‘função’ de seleção social da escola, por um maior desfasamento em relação aos usos e costumes de outras tradições (culturais) educativas (DEBITA NOSTRA CXCI). 
E, sobretudo, o quanto lhe cabe na consolidação de uma ‘nova’ cultura de aprendizagem. A qual, ao relativizar o esforço e a dedicação, não só pode ter suscitado a mais formal abordagem da escolaridade, em alunos originários daquelas outras tradições (sentidos), como se terá refinado na apreciação de tudo quanto na escola mais se possa fruir.
Assim alargando o fosso entre os que por lá conseguem, ou não, reter o ‘sentido’ último das ‘sinuosas’ estratégias escolares. Mas também acrescentando o “pessimismo” sobre os efeitos secundários desta escolarização e o seu impacto em qualquer “concorrência internacional” não parasitária de mão-de-obra menos qualificada. 
E, possivelmente, acolitando a disseminação do tal lema “lúdico e de prazer”, que tão pouco nos preparou para as “contrariedades”, até pelas suas repercussões nos já franqueados níveis superiores de escolaridade, de que vamos tendo testemunho entre nós.
Nomeadamente, a propósito do ‘formalismo’ que marca muitos dos rituais de aprendizagem, geralmente assentes num desmesurado recurso à memorização. E que apelam à valorização do que exigem de “suor”, independentemente das metas alcançadas, se é que não do que demonstram de capacidade de adivinhação (Costa, 1997, “O ‘formalismo’ como cultura de aprendizagem” …, Educare-Educere, Número Especial).
O que, no fundo, corresponde a um mais geral entendimento do percurso escolar, como ritual iniciático, a exigir pontuais ‘sacrifícios’ em nome da posterior compensação. Não em termos necessariamente “lúdicos e de prazer”, mas de um expectável (re)conforto, eventualmente beneficiário dos mais ‘adequados’ patrocínios.
E que, na escola, não só tende a concentrar o indispensável esforço em calendarizados períodos, como também ‘libertar’ para um distendido e prazenteiro treino que até pode simular outros ‘ganhos’, por vezes pouco ‘democráticos’, de ‘estatuto’ social.
E bem pode ter sido tolerado, se é que não sugerido, pela ‘velha-sabida’ em rituais iniciáticos que é a instituição escolar

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