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Crónica: Debita Nostra CXIV

Luís Costa - 30/05/2019 - 9:23

"Não me espanta que te pareça assim, disse ele, uma vez que não tens uma noção exata dessa maneira de governar. Mas, se tivesses estado comigo em Utopia e como eu observado as suas leis, durante os cinco anos em que com eles vivi, tendo-me de tal modo deliciado que jamais teria saído se não tivesse de revelar este novo mundo aos europeus, tu confessarias nunca ter visto um povo tão bem governado.” (Tradução livre de Thomas More, 1516, “Utopia”, pp. 58-59)
Apesar dos possíveis equívocos sobre o que é a democracia, não se pense que os principais perigos que a ameaçam lhe advêm do exterior. 
Atrever-me-ia mesmo a dizer que os sistemas democráticos tudo têm feito para que se lhe encurte o alcance, alargando o leque dos que lhe resistem. Não foi nos últimos quarenta anos que se generalizou a ideia de que os direitos sociais e políticos se podem ajustar à imperativa competição com países não democráticos, num total desprezo pelo preço da democracia?!
Já vemos como os interesses liberais prezam a via democrática e como a batismal expressão de “democracia liberal”, por acanhada, é também muito pouco inocente. Mesmo sugerindo a existência de outras!... 
Mas vamos aos factos a que nos conduziu o axioma neoliberal e que, em teimosa recorrência, lhe contradizem os argumentos.
Sendo certo que uma das mais legitimadoras conquistas da globalização liberal foi a da redução da pobreza extrema, esse processo abrandou, todavia, e inverteu-se mesmo, desde 2013, nalgumas regiões do globo. Por outro lado, em contexto favorável, o rendimento global cresceu em menos de metade para a totalidade dos 50% mais pobres do que para os 1% mais ricos. Assim, entre 2017 e 2018, o rendimento daquela população (3,8 biliões de pessoas) passou a corresponder ao das 26, em vez das 43 pessoas mais ricas (Oxfam, 2019).
É claro que a situação é muito diversificada nas diferentes partes do globo, mas, sendo global, não deixa de requerer uma global explicação. Que pode passar pelo presente empolamento do sistema financeiro e a sua consequente necessidade de sustento produtivo. Ou seja, pelo serviço das dívidas e a sua tradicional eficácia compulsória. E pela garantia das “dívidas soberanas”, dado o papel agregador do Estado-nação, na coletivização das responsabilidades (culpa), e a sua capacidade executória e de amortecimento dos conflitos.
Que a atual febre política seja a dos mais ou menos patrióticos nacionalismos, há que aproveitar! Mas, se possível, ao arrepio das veleidades democráticas. Como, num contexto ímpar de produtividade e riqueza, se haveria de convencer o ‘povo’ a votar na deterioração da sua vida e numa inferior condição para a dos seus filhos?!
Como pode, em democracia, aceitar-se um inverno sem certeza de primavera, a que nos conduziu esta asfixiante sonegação do papel histórico da Utopia?! 

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