"Muitos cientistas sociais citam Émile Durkheim, que no século XIX mostrou como a perda dos laços sociais e o esbatimento das crenças comuns conduzem a patologias, em especial quando os indivíduos se submetem sem limites à força coerciva do social, abdicando de seu envolvimento ativo na revitalização das crenças e dos valores morais da sociedade.” (Elísio Estanque, “a Práxis do trote” …, Sociologia e Antropologia, vol.7, 2, pp. 442, 2017).
Se Émile Durkheim (1858-1917) é considerado um dos fundadores da Sociologia é precisamente por ter sublinhado como, a pretexto da crescente afirmação da ‘individualidade’, se foi fragilizando a comum consciência do ‘social’. Numa tendência que, mais recentemente, pôde ser caricaturada pelo já célebre ‘desabafo’ de M. Tatcher de que “tal coisa não existe”.
Fê-lo destacando como uma quebra da regulação social, à entrada da sociedade industrial, se traduziu na emergência de uma série de patologias. Fê-lo na persistência em evidenciar como o suicídio, o ato aparentemente decidido no mais íntimo de cada um, obedece, ele próprio, a impercetíveis condicionantes sociais. Fê-lo, insinuando como este mesmo processo de ‘individualização’ pode, só por si, constituir uma demonstração de constrangimento social.
É claro que na sua visão da sociedade, que entendia como um todo funcional, não cabia a destrinça da diferente incidência do fenómeno sobre os diversos agrupamentos sociais. O que particularmente aqui nos interessaria, quando se trata de falar do “povo” e do impacto da ‘individualização’ no nosso sistema de participação política (democracia representativa).
Talvez seja este o momento de o fazer, agora que a questão do ‘individual’ forçou as primitivas barreiras ideológicas, para se converter num “must” cultural, e os mais recentes estudos insistem nos possíveis efeitos disruptivos de tamanha ‘individualização’ (Debita Nostra CXXXIX).
De qualquer modo, consta que o tema é de alguma forma marginal às ‘culturas populares’, naquilo em que o não tomam por arrasto do relevo que lhe dá a classe média. O “povo”, como se sabe da comunicação na escola (Basil Bernstein, 1970), parece ater-se aos “códigos restritos” em que predomina a “imperatividade”, mais próxima da regulação das sociedades tradicionais.
Ora, esta afeição por padrões comportamentais claros e oportunamente ditados, não pode dispensar o contexto social, nem prepara para a ‘individualidade’, como a que, para outros, se foi aprendendo por “apelo pessoal”, em atitudes interiorizadas desde a mais tenra infância.
Nem parece seduzida pelo consumismo, no seu entrelaçar de individualidade e fruição. Quer por uma certa intuição do elam redentor do esforço e do sacrifício (sacru facere), quer pela rodagem que se perfez na força física, pela aspereza e imolação.
Numa dureza de vida que até pode suscitar indignação e revolta, mas não o associar entre (su)porte da dor e indignidade pessoal.
Já que de classes se trata, essas disputas poderá deixá-las para a classe média.