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Crónica: Debita Nostra CXLI

Luís Costa - 09/07/2020 - 9:30

"A história repete-se, mas agora os valores são outros. O grande pecado do mundo moderno é o racismo. Até há pouco era o machismo. Estou a dizer isto como se me opusesse a esses ideais de igualdade social. Não me oponho de modo nenhum. Apenas aponto a semelhança no zelo que cada época põe numa causa em particular.” (Onésimo Teotónio Almeida, Público 27 de junho de 2020).
Não resisto abrir aqui um parêntesis, neste meu encadear de já cento e quarenta páginas, para comentar um tema de incontornável atualidade, o do “racismo”, entendido, como a discriminação correspondente a qualquer diferença de natureza étnica. Um tema muito mais substantivo do que aparenta, mas cuja excessiva adjetivação, neste momento, o pode querer roubar em substância.
Tal é a chama iconoclasta que se ateou a Ocidente, a propósito do mediático assassinato cometido pela polícia de Minneapolis, nos EUA. Pelo menos tão mediático quanto o da criança cujo cadáver (lembram-se?) deu em tempos à costa, numa das nossas praias europeias.
Mesmo considerando que a questão da escravatura foi assim retomada pelo seu insistente peso histórico, não temo tanto o modo como os derrubadores de estátuas, na sua indignação, parecem querer cuidar da História, quanto o modo como a História poderá querer cuidar deles. 
É que não é difícil vislumbrar-lhes a crença na posse da gazua da definitiva interpretação do Tempo. A que inspirou todos os totalitarismos e os muitos pensamentos únicos, mesmo os que se travestiam de ‘realismo’, como o mais recente TINA (There is no alternative).
Crença que pode induzir uma recíproca leitura da História feita ainda pelo tom da pele.  Quando, o mais provável, é que as diferenças étnicas sempre tenham sido distintamente ‘glosadas’ por ‘conquistadores’ e ‘humanistas’, na linguagem sua contemporânea. 
Claro que o racismo existe. Em particular, quando aquelas diferenças são o suficiente ou exclusivo pretexto para várias sujeições, agravadas pelo conhecido fatalismo das profecias sociais (a tendência dos seres humanos para se conformarem com as expectativas que geram a montante). Só que aqui, na dependência da capacidade para as concretizar, ou seja, de uma outra componente de todas as sociedades: as relações de poder. 
De outro modo, seria possível encontrar sociedades não-europeias em que uma intentada conquista não constituísse um legítimo móbil para a escravização. Ou ignorar como, na revolução industrial, o abolicionismo também se cruzou com a ‘oferta’ de uma mão-de-obra rural, apta para outro trabalho ‘escravo’, com poucos encargos de sustentação.
Ora, as relações de poder nunca obstaram a que o tempo se ocupasse do julgamento do imediato passado (vejam-se as estátuas decapitadas nos museus da civilização romana) e não será agora, democraticamente legitimadas, que deixarão de o fazer. 
Mas a democracia não nos confere o dom de viajar no tempo, ou não sobraria “pedra sobre pedra”. 

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