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Crónica: Debita Nostra CXLI

Luís Costa - 23/07/2020 - 9:22

"A distinção dá-se dentro do jogo social, com diversos mecanismos que permitem explicar a hierarquia de gostos, a imitação pelos subordinados dos dominantes, em contraste com o esforço destes em sê-lo, mantendo o lapso de conhecimentos e vantagens. Os primeiros procurando imitar o gosto dos que lhe estão acima e os segundos esforçando-se por manter distâncias” … (Tradução livre de A. Jourdain e S. Naulin, “La théorie de Pierre Bourdieu et ses usages sociologiques”, 2011).
Voltemos agora à atomização do tecido social e às questões que ela suscita ao processo de participação política (democracia representativa). 
Se a classe média detém a fama e o proveito do longo caminho percorrido pelo culto da ‘individualidade’, é provavelmente também a mais ‘afetada’ por este seu desfecho. Num desenvolvimento que não é fácil, mesmo genericamente, tipificar, mas que em muito transcende a clássica distinção entre “nova” e “velha” classe média (Debita Nostra CXXVII).
Há certamente uma classe média consolidada, na qual é possível distinguir o corte geracional representado pelos jovens “millennials”. Tendo bebido a ‘individualidade’ com o leite materno, são também estes, no seu conjunto e por esse à-vontade, os mais apetrechados para a sua lide (DEBITA NOSTRA CXXVI). 
Já de uma outra geração são demais setores da “nova classe média”, igualmente afetos à ‘individualidade’, mas dela fazendo um uso muito específico. É na teia das relações interpessoais que melhor ‘driblam’ as condicionantes sociais e garantem as ‘individuais’ vantagens, como no ‘sucesso’ dos seus rebentos. Pelo que a sua preferência do ‘individual’ vai de par com a arreigada defesa do ‘social’ que, assim, o possibilita.
Depois há uma outra classe média cuja recente mobilidade a torna particularmente receosa. Divide com a “velha classe média” alguma da incerteza quanto ao ‘progresso’ dos filhos. E se, como ela, é permeável aos (en)cantos do populismo, é, mais do que ela, atenta às oscilações da ‘fortuna’. O autoconvencimento ‘individual’ mal lhe disfarça a instintiva ilusão de se elevar pela insistente desvalorização do ‘outro’. Torna-se, então, particularmente vigilante do ‘social’, num policiamento que vai das simples ‘distrações’ do vestir aos comportamentos mais desviantes.
Mas há ainda a crescente vaga dos atraídos e, simultaneamente, traídos pela massificação da escola. Como a distinção social só se atinge pela raridade, a escolarização socialmente relevante foi-se deles afastando, como a linha do horizonte (Bourdieu), à mesma velocidade com que a perseguiam. 
Herdaram da socialização ‘popular’ as sequelas de um controlo social imperativo e de padrões de comportamento ditados (DEBITA NOSTRA CXL). Preferem, deste modo, as ‘receitas’ já condensadas aos desafios do sonegado metaconhecimento, desenvolvendo um sofisticado ‘gosto’ pela memorização.
Só que, na ausência de critérios precocemente adquiridos e progressivamente interiorizados, a reprodução dos desempenhos faz-se sempre por decalque, com prejuízo para qualquer imitação.
E clara desvantagem no seu mimar dos padrões comportamentais dominantes. 

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