Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Crónica: Debita Nostra CXLIII

Luís Costa - 06/08/2020 - 9:05

Mas haverá um denominador comum a todos estes protestos? Sim. A frustração, o ressentimento e a revolta contra o sistema estabelecido. A incerteza sobre o futuro e a luta pela dignidade de que os manifestantes se sentem excluídos. Excluídos, porque não se sentem representados pelas instituições tradicionais (…) e excluídos porque sentem que os governos não respondem às suas necessidades, aos seus anseios e, sobretudo, aos seus receios.” (Severiano Teixeira, Público, 20-11-19).
A reflexão sobre a democracia representativa levou-nos a remontar às suas fundações, quando as revoluções liberais instituíram formas mais amplas de participação política. Porém, em obediência a uma conceção abstrata de liberdade que não tinha em conta as condições do seu exercício, deixando o “povo” exposto à da crítica sobre a (sua) impreparação para o “sufrágio popular”.
A essa crítica responderia um anuente liberalismo, com a restrição censitária do voto, pouco teoricamente sustentável, e com os vários filtros do sistema de representação. A começar pelos que ‘naturalmente’ decorriam daquela mesma ideia de liberdade, excluindo os ‘impreparados’ e abrindo-se à insinuante legitimação dos poderes fáticos (caciquismo).  Sistema de representação que só o drama da “Questão Social” viria subverter, pela ‘oferta’, dando origem às principais constelações políticas que hoje (re)conhecemos.
A essa crítica se foi também respondendo com a progressiva expansão da escola que, como oportunidade de ascensão, se viu mais vinculada à discreta função de distinção social que à da concorrente aposta na geral formação da população. E cuja derradeira democratização nem sequer evitou um efeito de “streaming” (encanamento?) que, grosso modo, separa o limitado acesso ao pensamento crítico da sua massiva capacidade de reprodução. 
Foram ainda as democracias seguindo um processo histórico de progressiva ‘individualização’ que, se por um lado, tem gerado alguns efeitos ‘patológicos’, aparece invariavelmente ligado a apelativos padrões de consumo e a um ideal de fruição. Culminando na atual atomização do tecido social e consequente pulverização das identidades sociais e políticas (Debita Nostra CXXX a CXL).
É deste contexto a referida proliferação das ações de protesto, que a emergência sanitária de algum modo velou, visando quer regimes ditatoriais, quer as próprias democracias, nos seus formalismos e distorções e no seu sistema de representação.
Numa escala em que se torna muito mais difícil articular o fenómeno da ‘individualização’ com o caráter geral dos problemas a que urge atender, conjugando decisões políticas globais com uma responsabilização política circunscrita.
Mas também, como já antes, pelo enquadramento do “povo” que a democracia precisa de representar, nomeadamente o que foi sendo ‘(a)traído’ pela massificação da escola. Em particular, aquele a que se deixou uma memorizada e não transacionável reprodução do conhecimento e uma restrita mobilidade social.
Na sua mimética atração por outros estratos sociais (Debita Nostra CXLI), como no seu mais fácil acesso a novos instrumentos de informação e comunicação.

COMENTÁRIOS