Todos estes exemplos foram tirados das redes sociais. E o que fazem é disseminar falsas afirmações, teorias conspirativas, boatos e rumores, pseudociência, acusações caluniosas, ressentimentos e invejas sociais, que, por sua vez, são consumidas pelos seus semelhantes num eco especular, que, em tempos de crise, tende a criar um imenso ruído.” (Pacheco Pereira, Público, 21 de março de 2020)
Se algum encargo resulta, para a democracia representativa, da atomização do tecido social (DEBITA NOSTRA CXXXVIII a CXL) é o de um maior escrutínio sobre o que é o “povo”, para lá da abstração dele se faz no designado “sufrágio popular”.
Só tal pulverização de identidades poderá explicar a maior dificuldade das instituições em abarcá-las, sejam elas de natureza sindical ou partidária. Ou que ainda mais se fechem, apesar da geral rejeição da sua parcimónia para com corporativismos ou menos escrupulosas formações de interesses.
É neste contexto que sobressai a heterogeneidade da classe média e a sua influência sobre os demais setores da população. A começar pela que manteve uma relação privilegiada com a escola, já que, ao invés da ideia corrente, a massificação escolar em nada prejudicou a sua preferencial destreza académica e a sua ‘natural’ distinção pela escolaridade.
E se nesta destacámos os jovens “millennials, pelo trato fácil, mas específico, com as modernas tecnologias da informação e comunicação (TIC), convém não menosprezar o fenómeno da massificação, no que ele representa de acrescento à mesma diversidade.
Refiro-me à mole de gente escolarmente apetrechada que, em nome de uma certa produtividade, foi mais além na mudança social pela escolarização, ficando aquém na mobilidade social pela escolaridade. E a quem a instrução privou da educação, mesmo que não lhe evite os mais notórios tiques, no que aparentam de habilitação social. E que, sendo numerosa, consegue impor-se ao ‘democratizado’ uso de mais versáteis instrumentos de comunicação (DEBITA NOSTRA CXLI). No que eles poupam em ‘despesas’ de representação.
Se o critério da veracidade era, até aqui, o estar publicado (livro), porque não há de o mesmo reconhecer-se nas atuais formas de ‘publicação’?! Tanto mais quanto sobejamente confirmadas por via de algorítmicas prestidigitações! Num sufrágio em que o número de “likes” até pode superar, à larga, os resultados de qualquer mais formal votação.
Tem ali um meio que lhe permite ‘falar’ sem ‘ouvir’ e em que pode exceder-se, já que, por regra, a boca fala “da abundância do coração”. E sem grandes preocupações de como é que o seu ‘nós’ se há de conjugar com o dos demais, o que, de resto, nem lhe (a)parece muito diferente do comum exercício dos processos de representação. Porém, com uma significativa distinção mental: a universalidade do auditório não lhe retira a sensação de estar completamente só.
O que é sempre uma situação propícia a qualquer tipo de desabafos!