No tempo em que percebíamos que a democracia era uma experiência arriscada e frágil, investimos vastos recursos educativos e intelectuais na difusão das boas notícias sobre o nosso sistema político. As escolas e as universidades sabiam que a sua tarefa mais importante era educar cidadãos. (…). Com os anos, esse sentido de missão dissipou-se.” (Y. MounK, “Povo vs. Democracia”, 2019, pp. 23).
Certamente que não pode negar-se o papel da crise económica no crescimento da base social que sustenta os populismos. Porém, também é certo que, no conjunto dos seus mais afetados, os “millennials” (nascidos após 1980), têm nela um porte distinto, nomeadamente no domínio do digital e no uso dos seus instrumentos de comunicação.
O que, expressando um geral apetrechamento para superar as atuais dificuldades, não dispensará outra minúcia na análise de tão vasta coorte etária. Mas sugere que se não mate o mensageiro e se prefira observar o modo das redes sociais à rejeição das suas potencialidades.
Para já, concentremo-nos na imensidão dos que, tendo sido beneficiados pela massificação da escola, nem por isso superam uma sensação de perda, face à sugestão de mobilidade com que a democracia os atraiu. No contexto de fragmentação da classe média, do seu poder de arrasto sobre os estratos mais ‘populares’ e de um obsessivo culto da ‘individualidade’.
E em que a dissolução do sentido gregário se multiplica em individualismos, a frustração em revanche e o decalque social em múltiplos ‘rituais’ onde parasita a ideia de que estatuto é poder e de que este se há de revelar em práticas, mais ou menos ‘alegres’, de imposição/sujeição.
Ora, ainda que não nos restem dúvidas quanto ao modelo de tão viciante mímica, isso não nos deve iludir quanto ao seu impacto sobre a democracia, agora colocada em piloto-automático.
Sobretudo no cenário em que a universalidade da comunicação é filtrada por algoritmos, em circuitos fechados, na ausência de contraditório, no conforto do uníssono, no cultivo de (pre)conceitos, no extremar de posições, numa efervescência tribal.
Sem que se evite a discreta (super)visão de “big brothers”, a manipulação de uma dedicada “expertise” ou até a calculada predestinação dos sucessos eleitorais. Que se hão de preferir a outras intransigências do ‘destino’, no cotejo com o imediato pronunciamento das redes sociais.
Sempre que cresce a mediação das planificações a longo prazo, da escala de equacionamento dos problemas, da informação técnica especializada, à margem de qualquer sufrágio sobre as políticas de fundo, ou mesmo as do mais trivial quotidiano.
Ou então, quando os próprios poderes fáticos se incrustam nos governos e parlamentos, tecendo a filigrana do favor das leis, estabelecendo sofisticados patrocínios, premiando ‘carreiras’, naturalizando corrupções.
E, em nome de uma certa ‘individualidade’, as pessoas são ‘convidadas’ a desaparecer das suas vidas, enredadas nos muitos ditames da presente (des)ordem mundial.