A intensidade das animosidades partidárias na América contemporânea reflete o esforço combinado não apenas de uma crescente diversidade étnica, mas também de crescimento económico desacelerado, de salários estagnados na parte inferior da distribuição de rendimentos e de uma crescente desigualdade económica.” S. Levitsky e D. Ziblatt, “Como morrem as democracias”, 2018, pp. 232).
Uma ideia corrente é a de que os populismos se devem à emergência histórica de líderes, com peculiares características, que conseguem galvanizar multidões e atraí-las para a lhaneza e ‘eficácia’ das formas políticas mais autoritárias.
Mas, se é certo que o aparecimento de tal tipo de personalidades pode facilitar muito as ‘coisas’, resta saber de onde lhes veio a oportunidade ou mesmo a propensão, se não do alfobre de um suporte (base) social que as fez germinar e lhes deu guarida.
Um bom exemplo disso são os Estados Unidos. Ao contrário do que sugerem antagónicos simplismos, a sociedade americana sempre foi uma sociedade dividida, desde as clivagens que culminaram numa guerra civil às lutas pela concretização dos direitos cívicos.
E cheia de contradições, como a que leva as populações do interior, principais beneficiárias do sistema fiscal, a declararem-se pela baixa de impostos (sobre a riqueza), proclamada panaceia para o seu crescente empobrecimento. Nisso alinhando com a avidez da alta finança que, como no caso da “Americans for Tax Reform”, do “Club for Growth e da rede Koch, foi ‘pegando’ o sistema político pelas suas dispendiosas excrescências.
Ou a do modo como meio país, ‘feito’ de imigrantes, se volta contra a imigração, ‘su(d)ando’ o pavor do (pre)domínio WASP (White American, Social midle-class, Protestant), pelo escoar de mal disfarçados privilégios.
Ora, o nacional-autoritarismo sempre foi fazendo os seus assomos na história americana, contando, aquando da Grande Depressão, com centenas de grupos radicais. Gerou também líderes carismáticos, como o rev. Charles Coughlin e o governador do Louisiana, Huey Long; zelosos administradores, como o senador Joseph McCarthy; e ‘populares’ candidaturas presidenciais, como a do governador do Alabama, senador George Wallace (1968 e 1972).
Porém, sem a presente pressão demográfica e, sobretudo, sem a depreciação económica e as acrescidas desigualdades, que a não distendem, e que, nos EUA, remontam à implacável rotura (neo)liberal introduzida pela administração Reagan (anos 80). Com particular incidência no operariado da ‘enferrujada’ cintura industrial (Rust Belt), mas não só.
Enquanto a produtividade nas manufaturas quase quadruplicava, entre 1980 e 2010 (Federal Reserve Bank of St. Louis, janeiro de 2017), o “sonho americano” ia-se progressivamente esfarelando, em ‘pesadelo’. E se o nível de vida das famílias estadunidenses duplicou entre 1935 e 1960 e, depois, entre 1960 e 1985, de então para cá pura e simplesmente estagnou (Y. MounK, 2019, pp. 157).
O que nos convida a voltar ao liberalismo e à conveniente polissemia do termo, sobretudo na sociedade americana.
Luís Costa