Caros jovens! Eu sei que acolheis nos vossos corações o cada vez mais angustiado apelo da Terra e dos seus pobres que clamam por ajuda e responsabilidade e por pessoas que lhes respondam e não virem a cara. Se atenderdes ao que o vosso coração vos diz, sentir-vos-eis parte de uma nova e corajosa cultura e não tereis qualquer receio de enfrentar riscos e trabalhar para construir uma nova sociedade.” (Tradução livre de “Letter sent by the Holy Father for the event ‘Economy of Francesco’”, Francisco, maio de 2019).
A recente sequência de feriados veio mais uma vez lembrar-me um certo ‘realismo’ corrente e como ele reflete uma cultura do imediato, tão pouco preocupada com a democracia (DEBITA NOSTRA XIV).
O mecanismo é simples: assumimos a transcendência das características desta nossa sociedade, sob o pretexto de não existirem outras melhores. Depois, adotamos o natural propósito de a otimizar, começando pelo imperativo de maximização da produtividade. Uma produtividade que, dado o fatal desleixo da natureza humana (não as relações de produção em que decorre), tem de relevar mais de rotinas repressivas do que de processos de participação.
Poderíamos discutir se o propósito é mesmo o de ganhar em consumo o que se perdeu em sociabilidade. Mas, como ninguém pretende um retorno ao passado, diria apenas que, felizmente, também sempre foi havendo quem não prescindisse de avaliar as próprias sociedades. Se não, ainda hoje faríamos cálculos sobre prejuízo da abolição da escravatura ou do encurtamento da jornada das dezasseis horas laborais.
Pouco importa que, há quase cem anos, um insuspeito Elton Maio tenha concluído (Western Electric Company, 1927) que o mais significativo para a produtividade não é a duração do trabalho, mas as condições em que ele se processa. Ou que avanços tecnológicos tenham suscitado formas organizativas muito mais estimulantes e democráticas. O que prevalece é a primitiva pulsão pelo trabalho-forçado e a mão-de-obra barata, característicos das lógicas e dos sistemas não-democráticos.
Porém, o que hoje me trouxe aos feriados não foi este atrito com um (im)produtivo ‘realismo’ que não desdenha derivar de tão iluminadas ‘evidências’ como a da infinitude do crescimento económico ou a generosa autorregulação dos mercados.
Foi simplesmente o facto de não ter encontrado um em que ele fosse celebrado. Os feriados, fundam-se, por norma, numa dimensão transcendental, já porque nos religam ao transcendente, já porque evocam feitos em que os humanos são chamados a transcender-se: em inovação, coragem ou mesmo rebeldia.
A sua determinante nunca foi a de ter de se fazer como se faz, para competir, mas a de atualizar o papel histórico da Utopia. Não pela sua intangibilidade, mas como horizonte orientador e apelativo em que a humanidade ouse rever-se.
A mesma que as principais vítimas deste ‘realismo’ corrente, os jovens, são hoje chamados a reeditar.