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Crónica: Debita Nostra CXXI

Luís Costa - 19/09/2019 - 10:17

Uma reorganização substantial da maneira como as sociedades produzem, gerem e consomem recursos poderia sustentar uma nova civilização de alta tecnologia, mas isso requeriria uma nova ‘economia circular’ fundamentada em generalizadas práticas de reciclagem nas cadeias de produção e consumo, uma completa mudança para a energia renovável, o uso de métodos agro-ecológicos de produção de alimentos e, com isso, muito diferentes estruturas sociais.” (Tradução livre de Nafeez Ahmed, The Guardian, 4 de junho de 2014).

 

Para que se fale em “precariado”, não basta a previsão de que os “millennials” (n. 1980-2000)), como agentes de um “novo modelo produtivo”, representarão 75% da força de trabalho mundial, em 2025 (OCDE). Importa também saber até que ponto das suas vivências, marcadas pelo uso das novas tecnologias e uma arreigada individualidade (DEBITA NOSTRA CXIX), poderão emergir outros modelos organizativos e mais consistentes formas de presença social.

Muito provavelmente isso passaria pela formação de uma maior consciência gregária, enquanto vítimas da precariedade. Mas, então, também inevitavelmente há de passar pela conquista de um espaço próprio, em que a sua criatividade se solte na procura das formas adaptativas que melhor correspondam a uma situação que, não sendo inédita, é certamente particular. 

O que implica fazer face a inúmeras ‘razões’ e múltiplos poderes, nomeadamente os que se refastelam nas maneiras já instituídas (‘primogenia’) de agir e reagir (DEBITA NOSTRA LXXXVIII e CXX). Quer os do imediato senso-comum, quer os que nele ganharam foros de cientificidade, começando pelos apostados na recuperação da sua capacidade inovadora para a confirmação do próprio sistema de precariedade.  

Ora, à primeira vista, a precária “economia de partilha” parece perfeitamente recuperável pelos (ab)usos na absolutização do lucro, de que exemplos como a Uber e a Airbnb seriam a demonstração.

Contudo, ela aparece também firmada numa filosofia e frugalidade tais que dificilmente se compatibilizam com os vulgares padrões de consumo e o desvairado modelo de crescimento económico que lhes subjaz. A coorte precária, tolhida nas melhores perspetivas de nível de vida, dificilmente se reconhece no mamarracho ideológico que a renega, sob a panaceia ‘científica’ do crescimento ilimitado, universalmente replicável num contexto de exacerbada competição.

A saber: Que os seus problemas se devem ao menor crescimento e não à distribuição do respetivo rendimento. Que crescimento há só um, este que, qual pescadinha de rabo na boca, ‘cientificamente’ se confirma pelo progresso existente, até no suscitar da atual consciência ecológica. E que esta é supérflua, uma vez que o desenvolvimento tecnológico sempre permitiu que se fossem alargando as baias de um tal crescimento. 

Mesmo que, em meio ano, já se lhe tenham sacrificado os recursos anuais do planeta e que este se afogueie nos distúrbios climáticos e no (a)crescer da correspondente lixeira.

Mas não será este, certamente, o único senso-comum com que a precariedade se pode confrontar.

Luís Costa

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