"Tratando-se de pensar o mundo social, é sempre de contar com dificuldades ou ameaças. A força do pré-construído reside no facto de ele se inscrever tanto nas coisas como nas mentes, apresentando-se objetivado em evidências que passam despercebidas porque valem por si. (Tradução livre de Pierre Bourdieu, “Réponses”, 1992, pp. 221).
Entre as maiores dificuldades que a vocação monopolista das maneiras instaladas de (re)agir coloca à mobilização dos jovens “millennials” (DEBITA NOSTRA CXXI), está a da sua inscrição no senso-comum, suscitando a espontânea reserva da generalidade dos mortais.
Desde logo, a que se refere à lide com a fragilidade de tudo quanto é novo, recusando-lhe o caráter embrionário de que sempre provêm as instituições. É que, ao invés da tradicional “sociedade de produtores”, na “sociedade de consumidores” (DEBITA NOSTRA CV), a pretexto da urgência dos frutos, faz-se por amesquinhar as potencialidades das sementes, muitas vezes comparando o incomparável.
Assim, a originalidade dos “millennials”, nas suas formas específicas, é frequentemente cotejada com o acabamento das fórmulas que a precedem, numa viciada ambição de demonstrar que não tem razão de ser. Nem poderá apontar aos seus próprios fins, já que estes não constam do reconhecido cardápio.
Porém, tão mais grave quanto não menos frequente, é o embrulho de tal conclusão no delicado pergaminho do procedimento democrático, disfarçando na idoneidade da veste a natureza antidemocrática do argumento.
Neste caso, o defeito de tão ‘intrusivas’ formas é o da sua minoritária expressão. Motivo invocado para a prática da eugenia, já que o processo democrático viveria do apuramento de maiorias e das minorias que almejem lá chegar. Aqui, a falácia do razoado reside na ideia de que, em democracia, a quantidade confere a razão e não a legitimidade. Causa capaz para o esconjuro das desprezíveis minorias, como também o seria de um temporão fim da História.
Para além disso, acontece que estes “novíssimos” movimentos, na sua incipiência, podem também confundir-se na amálgama das rejeições da atual (des)ordem global que, por vezes, se derramam em violência. Embora a marca distintiva dos “millennials” seja a de uma certa segurança (a que lhes advém de um apetrechamento tecnológico que os empossa no controle do futuro, apesar das adversidades do presente) vivem paredes meias com o desespero e descontrolo de todos despedidos da globalização.
Agora, a tónica agressiva tanto pode atrair o senso-comum que faz por ignorar a geral violência daquelas condições de vida, como o que, partindo do papel do conflito na mudança social, se (pre)dispõe sempre a absolvê-la, em qualquer circunstância. É que o senso-comum não é aquela praia de uniformidade em que o estruturalismo o encerra e é ele próprio um espaço de controvérsia onde, mercê da diversidade social, também se disputam as ‘corretas’ formas de agir e de reagir.
Mesmo na reivindicação de fundamentos ‘científicos’.