Ao disputar aos “velhos movimentos” e até a alguns dos chamados “novos movimentos” e às suas organizações o monopólio da mobilização social, estes “novíssimos” movimentos suscitam também reações adversas entre setores políticos e sindicais cuja atitude oscila entre a cooptação e a tentativa de isolamento. (J. Soeiro, Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Vol. XXVIII, 2014, pp. 75).
Não se pode dizer que senso-comum e conhecimento científico sejam incompatíveis, já que no primeiro se foi acumulando todo um saber de experiência feito que de modo algum pode ser menosprezado. Tal não significa, porém, que seja impermeável à diferente capacidade dos grupos sociais para nele generalizarem a sua interessada visão do mundo (ideologia), tornando-se objeto de tácita disputa (DEBITA NOSTRA CXXII).
Assim também na relação com o conhecimento científico o qual, mesmo numa esforçada procura da objetividade, não escapa aos ‘custos de contexto’, em particular quando trata desse mesmo contexto, como no caso das ciências sociais.
Nessa relação, não só a ciência pode sempre aspirar ao senso-comum para se vulgarizar, como o senso-comum reclamar-se da ciência para se legitimar. Não admira, então, que, no processo de recuperação das inovadoras formas da sociabilidade jovem, as maneiras instituídas de agir e reagir invoquem a ‘ciência’. Nomeadamente, no seu firme propósito de agilização do lucro, sustentado em datadas rotinas de insustentável crescimento económico (DEBITA NOSTRA CXXI).
Mas não só, na medida em que quase todas se cruzam com a própria história da ciência. Como as nascidas na trama da Revolução Industrial e do deslumbrado caldo de cultura em que esta se desenvolveu, o “positivismo” (a convicção de que a realidade social obedece a leis fixas que, em definitivo, cabe à ciência desvendar).
No que às formas de reagir se refere, estas podem, desde logo, brotar da convicção de que os “novíssimos” movimentos, para o serem, devem romper com quaisquer formas de organização e representação. Podendo, neste caso, pela sua veia anárquica, confluir na comum violência ditada pelo desespero e descontrolo social.
Mas também derivar da crença em que, na conformidade com leis ‘científicas’ sobre o devir das sociedades (que o contexto do séc. XIX teria podido, de uma vez por todas, desvendar), serão elas as soberanas detentoras de tão intemporal revelação.
E, consequentemente, os encartados gestores das fórmulas (de representação e organização) por que os (in)surgentes se hão de inevitavelmente conduzir. Muitas vezes, salvaguardando na mesma argumentação a pretensa legitimação ‘científica’ com um rol de justas reivindicações, ainda que o enredo histórico, na sua complexidade, já lhes tenha mudado os protagonistas.
Neste caso, dificilmente os “novíssimos” atores entrarão na companhia, podendo embora vir a ser “cooptados” em situações de calculada figuração. E a imediata re(l)ação, mesmo que discreta, ser muito mais contundente que a de uma mera “tentativa de isolamento”.