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Crónica: Debita Nostra CXXIV

Luis Costa - 31/10/2019 - 10:04

As mobilizações programadas pelos partidos políticos e pelos sindicatos deram lugar a novas formas de ação social e a novas modalidades de protesto e participação cívica, muitas vezes sem líderes, sem organização e que surgem nas redes sociais digitais ou as usam como suporte. Neste contexto, (…) apresentam-se como um desafio social complexo, por questionarem as próprias estruturas políticas e partidárias institucionais, agindo muitas vezes à sua margem, e por emergirem como novas modalidades de ação pública.” (Babo e Taborda da Silva, ULP, 2016).
Face ao que ficou dito, a questão que se levanta, a propósito destes “novíssimos movimentos”, protagonizados pelos jovens “millennials”, é a de saber se recusam qualquer forma de representação ou apenas se não revêm no rol das ofertas de representação existentes.
Aqui, o imperativo de que se devem pautar por fórmulas geradas no contexto da Revolução Industrial, supostamente decorrentes de um códice ‘científico’, não suscita grande acolhimento. Tanto mais, quanto tão devoto empenho facilmente se converte em sectarismo: já como pune a dissidência; já quando remete o menor gesto desviante o campo das mercenárias instrumentalizações, já onde recusa o pesar pela morte dos mais idóneos adversários políticos. 
Não se trata, pois, da mera relutância em fazer acordos de “cooptação”, ou de cândidas “tentativas de isolamento” (DEBITA NOSTRA CXXIII). Mas de um efetivo propósito de anulação que, em função do contexto, pode ir dos incontidos reflexos de uma convencida superioridade às manifestações de um determinado ‘killer instinct’.
É claro que, em situação de desfavor, pode sempre socorrer-se do idealismo. E lamentar o não reconhecimento de que os “novos” temas se encontram de há muito inscritos na globalidade do seu projeto de mudança estrutural. Quando, em coerência, apenas lhe caberia perguntar porque é que se não deu por isso.
Porém, admitindo a coexistência de diversas formas de representação, essa tradição pode ainda preservar-se no mais leve intuito da conjugação de “velhos” e “novos” movimentos. Procurará, assim, o comum envolvimento em causas que visivelmente os dividem, embora mais promissoras, numa perspetiva fraturante. Em termos analíticos tenderá, então, a empolar o sucesso das poucas ações conjuntas, questionando a pertinência (heurística e operacional) da sociologia que o não faz (Soeiro, 2014).
Mas, não menos interessante, é a mais recente adoção destas “novas” causas pela generalidade das formações políticas, muitas delas também originárias de anteriores respostas à primitiva questão social. Tanta vez no sugestivo cumprimento de indispensáveis formalidades eleitorais, mas com muito poucas repercussões ao nível das práticas de representação.
De todos estes modos se foi por aqui lidando com as raras manifestações da expressão “millennial”, mesmo que, em dada altura, se lhe tenham recetado (Assembleia da República, 28-03-2011), os multicolores rascunhos das espontâneas motivações.
Folhas entretanto perdidas pelos meandros da representação formal, ou na ignorância das potencialidades técnicas de um ‘brainstorming’.

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