Quer a robotização, quer o desenvolvimento do trabalho autónomo estão a corroer não só o emprego industrial como também o seguro emprego de ‘colarinhos-brancos’ e de assalariados do setor comercial que constituíram a base da prosperidade da classe média ocidental no pós-guerra do século XX.” (Tradução livre de Nancy Birdsall, “Middle Class: Winners or Losers in a Globalized World?”, Center for Global Development, 2017).
A identificação dos jovens “millennials”, e dos movimentos sociais que protagonizam, com características de classe média (DEBITA NOSTRA CXXVI) obriga a uma breve referência a esta categoria social, tanto na sua inconstância como na sua heterogeneidade.
Designando genericamente as camadas intermédias da estratificação social, ela acompanhou a acelerada mudança das nossas sociedades, após a extrema polarização a que, no séc. XIX, as conduziu o recorrente desenfreio do liberalismo económico (DEBITA NOSTRA XLIV a XLVIII).
E se a dita classe média emerge, à partida, do círculo dos que, de forma restrita, mas arreigada, acedem à propriedade, em breve se irá alargar, com o crescimento da racionalidade burocrática (Max Weber) e a intervenção estatal. Desde logo, juntando ao circunscrito núcleo dos remediados da empresa agrícola, comercial ou industrial um cioso funcionalismo, no rol do que hoje designamos por “velha classe média”.
Depois, com o desdobramento dos serviços e a sofisticação das tarefas de planeamento, administração e gestão, avançando pelo conjunto dos assalariados e facultando que os seus profissionais se pudessem associar aos diversos profissionais liberais no que, por contraste, agora chamamos “nova classe média”.
Mas não só. Pressionado pelas ameaças que vinham do Leste, o ‘bem-estar’ social galgou obstáculos e pôde ir ampliando as hostes dos que, entre nós, se vinham distanciando das industriais “vítimas da fome”, para progressivamente engrossar o (re)medeio.
E se este já perdeu os assalariados que, por empenhada dedicação a rentáveis especulações, o sistema financeiro ricamente premeia, ganhou também a ‘nata’ dos que, mercê da sua capacidade reivindicativa, se mantiveram à tona nas marés da consequente crise.
Assim, a classe média cumpriria, de facto, a ‘predestinada’ missão de almofada do conflito social, só que numa dupla vertente: aplainando o percurso de desvairadas ambições; salvaguardando, como ‘guarda-avançada’ do Estado-social, um reduto de cidadania. Isto se a sua característica heterogeneidade lhe não preconizasse diferentes fados…
É que é na “nova classe média” que se concentram: a mais recente mobilidade social, apostada numa esclarecida educação: os currículos de valor transacionável, garantia de uma mais ágil emigração; a remanescente capacidade reivindicativa, mais impermeável aos (reais ou fictícios) receios de uma concorrente imigração.
Em suma, a resiliência aos impactos da globalização, e (en)cantos do populismo, que também podemos detetar nos jovens “millennials” e a que a “velha classe média” se acha muito menos capaz de resistir.
Mas, porque a seguirão, por arrasto, os herdeiros das deserdadas “vítimas da fome”?!