A estória já se dilui nas memórias da infância e, apesar de aturada pesquisa, nem por isso lhe encontrei a prova documental. Falava de dois soldados, ou seriam estudantes (os dois grupos que sempre escapavam à apertada malha do controlo social que os contos populares herdaram das sociedades tradicionais)?
Que fossem dois soldados! Sei que caminhavam por um daqueles enrugados caminhos ao serem emboscados. No calor da refrega, um deles acautelou-se atrás de uma moita, enquanto o outro, temerário, enfrentava os assaltantes, até que, literalmente, os deixou por terra. E só então o primeiro reapareceu, gritando: - Nem eles sabiam com quem se metiam!
Esta crise que hoje enfrentamos será incomum, mas apanha-nos muito mais avisados que os nossos avós, perante a “Grande Depressão” que intervalou os dois conflitos mundiais. Sem solução à vista, há quem diga que ela só pôde ser superada pelo enorme “projeto de investimento público” que foi a II Guerra Mundial (Krugman).
O que é certo, é que a tese que então vingou foi a de John Keynes, membro do Partido Liberal britânico, ao propor que fossem o investimento público e o consumo a inverter o ciclo recessivo e a relançar a economia. Não sem ter sido contestado. Desde logo, por quem veio atribuir responsabilidades à Reserva Federal americana, por não ter emitido suficiente dinheiro (Friedman): os preços, então, trepariam, aumentaria a produção, diminuiria o desemprego e subiriam os salários. Tão fácil quanto isto! Só que…, trinta anos depois!
Pela minha parte, embora ainda não fosse nascido, agradeço a ousadia! De qualquer modo, esta seria uma medida provisória, pois a intervenção estatal acabaria sempre por gerar inflação e, com os salários reais em baixo, mais ninguém quereria ir trabalhar. Ah! Esta ideia abstrata da liberdade! Tal e qual como em Adam Smith e na sua inabalável crença na infalibilidade dos mercados, como resultado de absolutas e imaculadas escolhas individuais. Mas, agora, valorizando muito mais o dinheiro…
É claro que as políticas keynesianas não têm mais aplicabilidade à escala do Estado-nação, pela simples razão de que a economia, como tão bem sabem os monetaristas, não se decide mais aí. E também não nos serve esta unidade europeia em que o deficit de uns acaba por ser o superavit dos outros.
Tenho, porém, um dinheirito no banco e estou convencido que é preferível correr o “risco moral” de uma intervenção na banca, ao “risco sistémico” de a deixar cair às mãos do mercado. Mas, como seria se a política fosse a de apostar na economia, salvando os bancos, em vez de ter de ser a de apostar nos bancos para salvar a economia?!
Os princípios monetaristas a que se deve a atual crise não são diferentes dos do liberalismo que produziu a histórica “devastação humana” de que aqui se falou e a conflitualidade que culminou na II Guerra Mundial. Atrever-me-ia até a escrever, esperando o contraditório, que os primeiros não constituem mais que a tentativa de recuperar os segundos, face ao grande descrédito em que então caíram.