-"Por outras palavras, um Estado sob a vigilância do mercado em vez de um mercado sob a vigilância do Estado. Creio que é aí, nessa espécie de reviravolta que, para os ordoliberais, só foi possível a partir da análise que fizeram do nazismo, (…) que puderam efetivamente, em 1948, tentar resolver o problema que lhes havia sido proposto, a saber: um Estado que não existe, um Estado que é preciso conseguir legitimar, um Estado que é preciso tornar aceitável aos olhos dos que dele mais desconfiam. (M. Foucault, Nascimento da Biopolítica, Curso dado no Collège de France, 1978-1979, pp.159).
Suponho que a sina das ciências sociais seja a de buscarem a objetividade possível nas condições particulares (subjetivas) de contexto em que os seus autores se pronunciam. E imagino as voltas que alguns destes não darão no túmulo quando, por devoção, se lhes reivindica a intemporalidade, ou, por oportunismo, se lhes objetivam as ideias.
Isso não me impede de tentar projetar quais seriam os contributos de M. Weber (falecido em 1920) para o estudo da Alemanha nazi, que ele prenunciou. Ou para uma mais geral avaliação das formas por que, nas sociedades contemporâneas, se continuam a misturar interesses e crenças, na inspiração profunda das subtilezas do comportamento humano. Ora, se nestes diferentes preparados coexistem propósitos de muito distinta natureza, também é certo que, acedendo ao poder político, todos eles parecem vocacionados para os piores resultados.
Se, com o liberalismo económico, a interessada convicção da inexistência de alternativas, pôde legitimar a “devastação humana” de que aqui se tratou (DEBITA NOSTRA XLIV a XLVIII), outros credos houve que, embora de forma menos extensiva, também se não acanharam quanto ao número de vítimas. É que as crenças tendem a infundir na ação política uma tal dose de legitimação que lhe empola o autoconceito, o arrogo de primazia moral, eximindo-a aos limites da própria condição humana. Com o nacional-socialismo, o fenómeno corporizou-se no mito da superioridade ariana.
Mas a tese, aqui, é a do contributo do nazismo para a reabilitação da ideia liberal, após o descrédito a que a conduziu mais de um século de desastrosas sequelas (Questão Social). E se todas as respostas aos desmandos do liberalismo económico passavam pela aposta na intervenção do Estado, a “solução” nazi assumiu particulares características. À tradição elitista protestante e à do nacionalismo bismarckiano, com uma economia tutelada e protegida e uma embrionária política social, veio juntar-se a crença que legitimou a barbárie.
Foi este Estado que a neoliberal “Escola de Friburgo” e os respetivos economistas (alguns deles, como Hayek, fugidos ao nazismo), se propuseram recusar na reconstrução da Alemanha do pós-guerra. Mas foi também esse Estado que, de algum modo, passou a ser por eles invocado como sendo genérica e invariavelmente o ESTADO.