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Debita nostra LX

Luís Costa - 27/04/2017 - 11:04

Para mim, os movimentos populistas são formas de resistência contra a pós-democracia, uma busca por alternativas ao sistema atual. Mas há diferentes formas de populismo, ele não tem um conteúdo específico, não é uma ideologia, não é um regime. É uma forma de estabelecer a fronteira entre “nós” e “eles”. (Chantal Mouffe, Universidade de Westminster, PÚBLICO, 21 de Março de 2017)
A derrota do nazi/fascismo, na 2.ª grande guerra, não teve apenas como consequência uma certa reabilitação do liberalismo económico. Permitiu igualmente superar muitas das hesitações dos setores conservadores em relação ao liberalismo político, tornando residuais ou periféricas as suas expressões mais autoritárias. Sem que, por isso, abandonassem genuínas preocupações com a indiferença social do liberalismo.
Mas a institucionalização de uma praxis democrática, sobretudo no que ela pressupõe de mudança das mentalidades, dificilmente pode ser a resultante de acontecimentos pontuais, sejam eles de natureza bélica ou revolucionária. A defesa de temas tabus, com que se preservam algumas intocabilidades, ou uma ostensiva recusa das normas de cortesia, por exemplo, continuam, à falta de melhor, a suprir por aí a censura ou uma mais gravosa punição dos delitos de opinião. O que nos evoca o conceito sociológico de controlo social.
As sociedades existem porque os seres humanos, no seu relacionamento, estabelecem normas (de que as jurídicas são um mero capítulo) pelas quais pautam as suas (con)vivências. E subsistem porque, em simultâneo, desenvolvem todo um conjunto de mecanismos tendentes a suscitar nos seus membros a conformação com aquelas mesmas normas: o ‘controlo social’.
Nas sociedades tradicionais, em que a pessoa se definia pela sua parte no todo comum e não havia perceção da mudança social, o controlo de proximidade era absolutamente vinculativo. Da sua eficiência dependia a sua eficácia e, desta, a própria persistência de referências normativas e a delimitação de uma identidade social (‘nós’ versus ‘eles’). A sua diluição suscitava os fenómenos de perturbação/insegurança que Durkheim designou por ‘anomia’.
Ora, na modernidade, com a progressiva afirmação do individual, as sociedades tornaram-se muito mais plurais e o pluralismo passou a fazer parte das normas e controlo sociais e dos seus previsíveis processos de mudança. Uma sociedade desencantada e sem alternativas que configurem um expectável devir (que o processo democrático pretende normalizar), é intolerável.
Já vimos (DEBITA NOSTRA L) por onde nos levariam as profecias do fim da História (Fukuyama) e, sobretudo, o seu autocumprimento pelos devotos do TINA (there is no alternative). Que os frustrados com a atual (des)ordem procurem fora as alternativas para que a democracia se fechou, não surpreende. Mas que dizer de sociedades que, em termos de norma(lidade)s, perderam efetivamente ‘o fio à meada’ das ‘linhas com que se cosem’?! Quais?
Tentem apurar o rasto da relação entre as onerosas imparidades dos nossos sistemas financeiros e a discreta abundância dos “offshores”, se querem ver!

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