…“desde os anos 50 até ao fim do séc. XX, as sociedades ocidentais (…) tinham o ‘privilégio’ mundial; estavam todas nos estratos superiores da distribuição global do rendimento. Em muitos países europeus, com sólidos estados de bem-estar, mesmo os membros mais pobres fazem parte do quintil global superior (20% da população).” (Branko Milanovic, Global inequality, The ABC of globalization, text for Le Monde, December 14, 2017)
Não sendo uma questão predominantemente demográfica (DEBITA NOSTRA LXXVIII), a crise do chamado ‘modelo social europeu’ é certamente uma questão política. Até por ser consequência direta do processo de globalização, ou melhor, da forma como a incontornável mundialização da economia tem vindo a ser tratada do ponto de vista político.
Também aqui há muito pouco de novo. Já quando da emergência histórica do liberalismo, o problema não foi que rompesse com as anquilosadas peias do Antigo Regime. Foi que proclamasse que a todos aproveitava igualmente essa pródiga liberalização, favorecendo cumulativamente as (des)vantagens já existentes. E legitimando todo um processo geométrico de concentração do rendimento, e de simétrica tensão social, que apenas a réplica de duas guerras mundiais pôde vazar.
O que há de novo é a escala a que o fenómeno se dá. E um muito maior apetrechamento dos Estados-nação para almofadarem os seus embates, embora na razão direta da incapacidade que têm para, a esta nova escala, o poderem regular.
E se agora os países pobres puderam, à partida, beneficiar do aumento de migalhas que sempre resulta da multiplicação do pão (50% da população do sudeste asiático saiu da situação de pobreza extrema, fazendo a inveja dos seus congéneres africanos), em termos estruturais, isso vale tanto menos para melhorar a sua posição relativa quanto mais vale para a legitimar.
Decisivo, sim, para lá do acréscimo de rendimento dos mais ricos, com níveis de desequilíbrio que lembram os que precederam os referidos conflitos mundiais (Piketty), terá sido a formação, naquela mesma longitude, de uma consistente classe média, cujo multiplicado provento, é hoje de fazer sombra ao dos cidadãos ocidentais.
Por aqui, com a quebra das barreiras alfandegárias e a deslocalização das empresas, no fito da mão-de-obra barata, são milhões os empregos entretanto desaparecidos. A irmanar, na mesma condição de insegurança, o clássico operariado do “Rust Belt” norte-americano, onde os slogans de Trump penetram como música para os ouvidos, os mineiros do nordeste de França, o operariado da cintura de Bruxelas e o das zonas industriais do norte italiano.
Por outro lado, é também significativa a varredela com que, na Europa, uma conjugação de crises veio depurar as classes médias, não só pela impossibilidade de reprodução, que a crescente precariedade juvenil tem vindo a potenciar, como também no já referido cotejo, em termos relativos, com as mais pujantes classes médias a nascente.
E com gerais consequências para as respetivas democracias, embora de diverso impacto, nos diferentes países, face aos muito variados pontos de partida.