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Crónica: Debita Nostra LXXVI

Luís Costa - 14/12/2017 - 10:27

Consta que no tempo em que os animais falavam, certa pulga mais atrevida resolveu um dia saltar do dorso de um terrier para o de um pastor alemão. Exausta, mas deslumbrada, terá então exclamado: - Como o mundo é grande!... E se tal sensação de largueza só lhe confirmava a convicção, iludia, porém, um pormenor: morava agora mais perto do armário dos inseticidas.
Vem isto a propósito da contradição entre a conquista civilizacional que elegeu o princípio da “prioridade do ‘trabalho’ ” (Laborem Exercens, pp. 41) e a atual ‘civilização do imediato’, com a sua aposta na precarização (DEBITA NOSTRA LXXIII e LXXIV). E, sobretudo, dos ‘realismos’ de que esta se arroga e legitima, sempre à escala de uma certa mundivisão. 
A começar, naturalmente, pelo ‘realismo’ interessado, de quem tira vantagem do fenómeno, mas chegando a todos os outros que lhe pegam na sugestão. É que, perante condições adversas, só há um irrealismo pior que o de não reconhecê-las: o de nada fazer para as superar. 
Desde logo, o ‘realismo’ fatalista. O que, mercê de um sentimento de culpa ou à força dos reais constrangimentos, aceita a sua inevitabilidade. Esquecendo, embora, que, apesar da imprescindibilidade das mocas, pôde a humanidade superar a “Era dos Flinstones”.
Depois, há o ‘realismo’ pragmático. Com o formalismo da escola terá aprendido a separar teoria e prática e, evitando a esquizofrenia, a saltitar entre os dois registos. Isola, então, os princípios da faina quotidiana, ignorando, talvez, que, quando desistimos de tentar agir como pensamos, acabamos sempre a pensar como agimos. 
Mas há também um outro ‘realismo’. O que se sustenta do sustento das próprias convicções, frequentemente atraído por mais ou menos solfejados amanhãs.
Seja o que acredita num ilimitado e universal crescimento económico, a pretexto do qual todos os constrangimentos são poucos e é preciso ir ainda mais além. Seja o que deliberadamente omite ou se mostra incapaz de desenhar um caminho palpável entre as efetivas condições presentes e outros propósitos estruturais. Como se estes brotassem da repetida proclamação dos princípios ou da linear, ainda que insurgente, recusa de pôr as mãos na massa da gestão conjuntural.
É certo que o faz na esforçada crença num derradeiro ‘volte-face’. O que, como que por magia, haveria de subverter enraizadas estruturas (dispensando o minucioso cultivo de um atraente poder ser), sem qualquer outro suporte para mais avisado realismo.
Porém, no que se refere ao trabalho, o ‘realismo’ corrente é o de que ele possa ser sempre feito com menos custos (valor) e o consequente acrescento de uma inquestionável, se competitiva, produtividade. 
Talvez que numa outra escala, que nos permita distinguir a dorsal penugem da incomensurável floresta, possamos melhor pesar o custo destes menos custos e a real produtividade de que aqui se trata.

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