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Debita Nostra LXXVII

Luís Costa - 28/12/2017 - 9:32

De facto, uma das características da globalização financeira atual é que cada país está em grande medida na posse de outros países, o que leva não apenas a obscurecer as perceções sobre a distribuição mundial das fortunas, mas também a uma importante vulnerabilidade por parte dos países pequenos, e a uma instabilidade na distribuição mundial das posições líquidas.” (Thomas Piketty, 2014, O capital no século XXI, pp. 286)
Ainda a propósito da sustentação do chamado “modelo social europeu”, há uma pergunta que qualquer pretensão de ‘realismo’ (DEBITA NOSTRA LXXVI) não pode deixar de se colocar: se outros produzem o mesmo por menos dinheiro, qual o destino do dinheiro que sobra? 
Tanto mais, quanto se sabe que o rendimento continua a esquivar-se dos países pobres, que 1% da população mundial aufere mais do que os restantes 99% (Oxfam); e que as desigualdades dentro dos países ricos nunca foram tão grandes (OCDE). 
Ora, é aqui que estudos estatísticos globais, como o de Piketty, ajudam a situar o papel do sistema financeiro. E a perceber como este, solto do sistema produtivo, vai torneando a inflação através da dívida, pública se possível, sustentada pela rarefação da parte do trabalho no rendimento global (DEBITA NOSTRA XXXI).
Faz então sentido, já que mais não seja pela necessidade de que o sistema se legitime, evitando uma inconveniente repressão (Piketty, pp. 389-390), que se invoque o aumento da produtividade, do crescimento económico e do emprego, para justificar uma obsessiva desvalorização das condições de vida e de trabalho que os contradiz.
De facto, tem sido a pretexto de ‘benéficas’ reformas estruturais que, desde 2008, as políticas da UE se têm orientado para uma alteração das leis que fragiliza os vínculos laborais. Com quatro de cada cinco novos empregos a serem precários, atingindo particularmente a população jovem (70% em Espanha, 67,5% em Portugal e 45% na média da UE).
E se os efeitos humanos e sociais de toda uma geração que tarda em se autonomizar e decidir sobre a sua vida e o seu futuro ainda está por fazer, os atuais responsáveis já vão concluindo que com a precaridade diminui a produtividade. E que, no computo geral, as correspondentes formas de trabalho acabam por ficar bastante caras. (Investigate Europe/Público, 09-10-17).
Por outro lado, começam a tornar-se visíveis os resultados económicos e políticos de uma ‘flexibilidade’ dos salários que só flete para um dos lados, que afasta a miríade de melhor emprego e consumo, sendo este cada vez menos compensado por cerceadas exportações.
Resultados que acabam por se projetar sobre as relações entre países, como os da UE, cada vez mais avaros no que concerne a políticas sociais. E se, em termos comparativos, continuamos no melhor dos mundos, nem por isso temos menores razões para cuidar de o preservar. 
Resta saber porque haveríamos de fazê-lo cada um por si!

 

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