O risco é a Alemanha cair na autossatisfação própria de um país que resistiu bem à crise e que (ainda) tem uma economia altamente competitiva. Mas que continua a fabricar, como a própria chanceler tem dito várias vezes, aquilo que fabricava há 100 anos. Não se trata de dizer mal da Alemanha, longe disso. Trata-se apenas de perceber e de aprender com o debate interno que se trava em Berlim, no qual a chanceler é uma participante ativa e sem ilusões”. (Teresa de Sousa, Público, 5 de agosto de 2018).
Que a social-democracia se propusesse um sem-número de reformas estruturais nada tem de extraordinário. O reformismo enquanto “sistema político sob o qual a transformação da sociedade, em vista de uma maior justiça social, se pode efetuar no quadro das instituições existentes, por meio de reformas legislativas sucessivas” (Priberam), está na sua génese. A questão é a de que tipo de reformas e se, a dada altura, estas não terão apontado em sentido contrário, pressionadas pelo dogmatismo que, a partir dos anos 80, também tomou de assalto o conservadorismo político (Tatcher e Reagan).
Não se pode dizer que os social-democratas ignorassem esta dinâmica liberal, já que foi contra ela que a social-democracia se fundou. De resto, as apreensões de A. Giddens (The Third Way: The Renewal of Social Democracy, 1998), face à “intensificação da globalização, expansão do individualismo, crescimento da reflexividade e proliferação dos riscos ecológicos”, eram perfeitamente pertinentes.
O que acontece, é que é hoje legítimo perguntar se a repercussão política das suas teses (‘New Labour’, ‘New Democrats’, etc.), se corporizou numa real alternativa ou apenas numa mais aceitável via para franquear as portas às ‘novas oportunidades’ liberais.
Concretamente, a ‘Agenda 2010’ (Schröder), com tanto impacto sobre os destinos europeus, propunha-se o cúmulo da ‘modernidade’: cortar na segurança social, distribuir benefícios fiscais, flexibilizar a legislação laboral (despedimentos e contratações precárias), proteger o desemprego, encurtando a duração do respetivo subsídio e, progressivamente, aumentar a idade da reforma. Nada que Tatcher não porfiasse, vinte anos antes, com outras dificuldades.
Ou seja, a resposta que a social-democracia encontrou, para os novos problemas globais foi a de acudir ao seu impacto orçamental (sucessivos choques petrolíferos, incontrolada evasão fiscal, insustentável especulação financeira, desproporcionada acumulação de rendimento e progressivo esforço fiscal do regressivo rendimento do trabalho) com a sempre ‘avisada’ receita.
Lá se foi a “sociedade do conhecimento” (Debita Nostra XCVI) que, certamente, não vai esperar por nós. E, se é um problema que a Alemanha continue a fabricar o que fabricava há 100 anos, o que não será querer fabricá-lo como fabricava há 200, com as inevitáveis sequelas políticas.
As de que um original liberalismo pode ser preferível às suas desconchavadas cópias e de que para a ‘unicidade’ democrática há sempre uma não-democrática alternativa.