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Crónica: Debita Nostra XLIX

Luís Costa - 17/11/2016 - 9:39

As democracias liberais estão sem dúvida ameaçadas por uma série de problemas (...), mas, além destas preocupações imediatas, resta saber se existem outras fontes mais profundas de insatisfação no interior da democracia liberal – se a vida aí é realmente satisfatória. Se não descortinarmos tais “contradições”, estaremos em posição de afirmar (…) que chegámos ao fim da história. Mas, se as detetarmos, teremos de afirmar que a história (…) irá continuar.” (F. Fukuyama, 1992, “O fim da história e o último homem”, pp. 280).
Mais importante do que assinalar a brevidade com que Fukuyama esclareceu esta sua dúvida, ou mesmo falar da moderna desconfiança do liberalismo económico em relação à democracia, como potenciadora da despesa e da dívida públicas, é ponderar uma outra questão. A da relação que ele estabelece entre uma genérica satisfação com a vida e o fim da história.
Relação que permite desconfiar da pressa com que por aí se decreta que “não há alternativa” ao liberalismo económico, numa particular sugestão do fim da história que, como qualquer outra, decorre mais da crença do que da racionalidade ou da empiria. 
Tal pressa, ainda quando resulta de um receio da mudança, evidencia desde logo uma atitude muito pouco liberal, se o que visa é negar reais insatisfações, inibir as suas potencialidades transformadoras, projetar uma democracia sem escolhas. 
Quando Margareth Tatcher proclamou: “não há alternativa”, afirmava uma posição de princípio que visava impor a praxis económica monetarista. Contra outras, pelas quais se não dispunha a deixar-se condicionar, num contexto que lhe não era ainda decisivamente favorável. Uma posição que seria totalitária, se não se inserisse num sistema político que o não é: o que permitiu que o seu discípulo, John Major, acabasse eleitoralmente apeado.
Não faz assim sentido, pegar no aforismo tatcheriano, TINA (There Is No Alternative), como se ele se referisse à intransigente conjuntura internacional que agora condiciona muitos países, como Portugal (J. M. Tavares, “Pacheco Pereira converteu-se ao TINA”, PÚBLICO, 04-10-16), e para que se não vislumbra uma saída.
A não ser que se pretenda ocultar ter a mesma posição de princípio, em relação à qual haveria então alguma má consciência. É que, não a adotando, nem aderindo às suas hipotéticas e compulsórias soluções (em que outros apenas veem um progressivo agravar da nossa situação económica e a consequente insolvência), o que é que naturalmente se faria?
Mesmo tendo em conta os constrangimentos existentes, procurar-se-ia sempre encontrar, nas insatisfações correntes, a via que permitisse ultrapassá-los e por onde, no dizer de Fukuyama, a história houvesse de continuar. Fossem as insatisfações dos que se não reveem neste liberalismo; fossem as dos que se insatisfazem com as suas recorrentes crises; fossem as da “insatisfação no interior da democracia liberal” que deixou de ter opções alternativas.
Mas as crenças também já não são o que eram. Há quem não acredite em alternativas, mas que, como com as bruxas, tudo faça para que elas não apareçam. E, às vezes, por formas bem curiosas…

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