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Crónica: Debita Nostra XLVI

Luís Costa - 06/10/2016 - 9:33

Posso realmente afirmar que o sistema manufatureiro provocou em Bradford uma multidão de estropiados… e que os efeitos físicos de um trabalho prolongado não se manifestam apenas sob o aspeto de deformações reais, mas também (…) pela paragem do crescimento, o enfraquecimento dos músculos e debilidade de toda a estrutura… Constatei a existência de inúmeros casos de escrófulas, de afeções pulmonares e mesentéricas e casos de má digestão (…) que são provocados sem dúvida alguma pelo trabalho na fábrica.” (In F. Engels,“ A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra”, 1845)
Situando-se numa perspetiva bem diferente da de E. Buret, a descrição de Engels apresenta uma distinta particularidade que a torna mais atenta ao pormenor. Utiliza sobretudo o discurso indireto, com recurso a um abundante acervo de relatórios e notícias de jornal em que sobressaem os testemunhos médicos.
Acrescenta, assim, em intensividade, estes inúmeros relatos que, apesar do seu incontornável significado, jamais poderiam caber em tão apertado espaço. Multipliquemo-los, então, pela sua população tipo, nos países por ela abrangidos, ao longo de século e meio de história, e obteremos o que, modestamente, aqui designei por “devastação humana”. 
O mais significativo, porém, é que, apesar da acuidade dos testemunhos e da nossa particular sensibilidade aos massacres (na razão direta da sua massividade e proximidade geográfica), não temos um termo específico para designar os que, como neste caso, se desenvolvem “em lume brando”. Do mesmo jeito por que tendemos a contorná-lo, se não a omiti-lo, ou a então a diluí-lo no tempo, como se nada tivera a ver com os nossos atuais debates e com a sua persistente fundamentação. Em edição revista, naturalmente!
Ora, por definição, as sociedades democráticas não acolhem tais formas de imolação, com maior ou menor distensão, e, de todo, o tamanho que esta pôde assumir, a raiar a calamidade. Não só porque preservam valores absolutos, mas ainda porque destacam a sua inevitável interpretação por seres humanos, que não podem, assim, dispor uns dos outros.
Porém, a ideologia sempre foi muito mais tolerante que a moral. E sabemos como pode acobertar um declarado ou latente negacionismo. E como pode sentir-se atraída, na sua redutora lhaneza, por esquemas mentais binários que, a pretexto de melhores razões, desenham estruturalmente o mundo, o geopolítico e não o social, em dois enormes hemisférios. Por onde dividem a história que interessa e a que não interessa; intoleráveis e inevitáveis massacres; ilegítimas e desvirtuadas ditaduras; insuportáveis e razoáveis precariedades, etc.. Com evidentes resultados ao nível da credibilidade política.
Importa, então, que uma maior sofisticação ideológica não oculte aqui idênticas opções, nem as suas subjacentes fragilidades doutrinárias. Como aquela em que Adam Smith, sugerindo a perfeita reciprocidade entre os indivíduos, permite a consequente ilação: tudo lhes estando ao alcance, também tudo deles depende, da sua responsabilidade ou mesmo da sua culpa. 
Abrindo deste modo as portas a que, ontem como hoje, se iludam responsabilidades, na exata medida em que tão facilmente se pode culpar a vítima.

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