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Debita Nostra CCXVII

Luís Costa - 31/08/2023 - 8:39

 

“Em todo e qualquer sistema (...) ‘a remuneração do trabalho’ permanece um ‘meio concreto’ pelo qual a grande maioria dos homens pode ter acesso aos bens destinados ao uso comum, quer se trate dos bens da natureza, quer dos bens que são fruto da produção. A justa remuneração do trabalho das pessoas adultas, com responsabilidades familiares, é a que for suficiente para fundar e manter dignamente a família e para manter o seu futuro.” (João Paulo II, Laborem Exercens, 1981, pp. 66).

Confesso que vários dos comentários aos aspetos mais doutrinários da recente JMJ me fizeram lembrar um antigo anúncio comercial em que, depois de elogiado o produto, se lhe destacava a etiqueta. Ao que o cliente correspondia: - então, levo a etiqueta!

Assim com a ‘etiquetagem’ política daquelas intervenções, no apelo aos jovens para dedicação a múltiplas causas, em que se contará a do “meio concreto” para “fundar e manter dignamente a família” (65% dos nossos jovens trabalhadores auferem salários inferiores a 1000 euros - Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, 2023).

‘Etiquetagem’ que é também tema da crónica de J. M. Tavares (Público, 12-08-23), onde, a propósito do ser humano, “divino na sua individualidade”, como consequência do ‘mistério-da-encarnação’, se afirma: “O Papa pode ser de esquerda ou de direita, como qualquer católico, mas a Igreja não é de esquerda nem de direita, porque é as duas coisas ao mesmo tempo. (...) Deus não vota à esquerda, à direita ou em branco, porque vota em cada um de nós”.

Afirmação plausível, já pela composição dos cadernos eleitorais, já pelo que o seu contrário significaria de distorção da democracia, por tão surpreendente propósito em votar. Resta saber se Tavares optou mesmo pelo trivial, ou por nos inibir de contrargumentar, já que mais não seja pelo receio de “invocarmos” nomes “em vão”.

De qualquer modo, a sua “individualidade” arrisca-se a cair num conhecido ‘culto do individual’, de ascendência mercantil e caráter idolátrico, que, apesar de tudo, não se (o)usava defender pela proposição de que, “em consequência da extraordinária ideia da encarnação de Deus”, os diversos atos humanos são uma expressão divina.

‘Culto’ agora hegemónico, mas ‘lógica sistémica’ que já propiciou o maior ‘ato’ de devastação social e pessoal de que há memória, no nosso contexto. Bem à revelia do “personalismo cristão”, em que o “primado da pessoa” nos reclama outro trato para com ela. E a institui em direitos, de “uso comum”, que a fazem muito mais do que ser “digna de proteção”. A querer que sejamos mesmo “todos, todos, todos”!

O que não escapa a uma leitura atenta da citada “Rerum Novarum” e demais “doutrina social fortíssima” que, ainda quando se ocupa de “meio(s) concreto(s)”, nunca deixou de ser debilitada.

Já que mais não fosse, por um insuflado “relativismo”.

 

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