O modelo económico é sempre o mesmo. O tipo de crescimento não produz riqueza, produz ricos. A redistribuição não acontece, a desigualdade cresce. (…). Não sei se há “novos pobres”, mas há “nova pobreza”. Quem trabalhava em indústrias como a hotelaria e restauração à partida não estava em risco de pobreza e neste momento uma parte está. Mesmo que o salário seja razoável, dura seis meses. Depois, a pessoa não sabe o que vai acontecer à sua vida. A precariedade laboral aumentou muito. (Sérgio Aires, presidente da Rede Europeia Antipobreza, PÚBLICO, 16-09-18).
Se a Revolução Industrial não criou as “vítimas da fome”, fomentou, todavia, a sua concentração nas periferias urbanas e tornou mais visível um fenómeno secular: a pobreza convive bem com o trabalho esforçado e não é estruturalmente arguível à indolência e à incapacidade (DEBITA NOSTRA C).
A desmedida miséria dos trabalhadores tornou-se então de tal modo gritante que só lhe resistiram as mais empedernidas crenças no ‘milagre’ liberal. Dando origem à generalidade das formações políticas com que ainda hoje lidamos, de alguma forma preocupadas com o ‘social’.
Se a emergência do “proletariado” despertou, assim, as mais diversas preocupações, suscitou também algumas fixações, ao descuido das menos ‘conscientes’ vítimas da fome. Fixações que podem ainda explicar muita da recíproca insensibilidade perante mais recentes formas de trabalho… Mas, sobretudo, com as transformações laborais que elas prenunciam.
Para já, importa, porém, sublinhar como o ofensivo crescimento e urgência da precariedade, e os correlativos assomos de pobreza, têm coabitado com mais elaboradas justificações que a da inverosímil inaptidão ou incúria dos trabalhadores, num contexto de inédita produtividade. Algumas delas a fazer lembrar a conhecida estória dos carapaus do dia seguinte.
Consta que, no seu desespero, terá um daqueles famintos batido certo dia a uma determinada porta, esmolando “qualquer coisinha” para comer. Perante tão jejuada insistência, foi-lhe de imediato perguntado: - Você gosta de carapaus do dia anterior?! – Gosto, gosto, gosto muito! - respondeu ele, já a salivar. – Então venha cá amanhã, pois estou mesmo a acabar de os fritar! E, certamente face à premência da atual competitividade, lá se lhe driblou a fome para “sine die”.
Ora, o argumento de que é necessário produzir riqueza para que esta se possa distribuir, para além do seu charme lapalisseano, enferma exatamente do mesmo vício: iludir o universal critério de distribuição!
É que, se a questão é a de competir, na vertigem de um geométrico e ilimitado crescimento, não será melhor ir, desde já, partilhando os carapaus?! E se a evidência é a de que a precariedade é, à partida, inimiga da produtividade, não estaremos, sob o pretexto desta, a acautelar uma ‘dispensável’ ou enviesada distribuição?!
Ou será que é do próprio modelo económico que não desdenharia competir (nivelar) por uma inesgotável desvalorização do trabalho?!