“É necessária introspeção e distanciamento para que os decisores políticos sejam capazes de alterar o modo de pensamento, de avaliação e de decisão face a esta crise económica, pondo de parte muitos dos ensinamentos da sua experiência pessoal passada. Mas é esse o desafio que este “outlier” (dado de efeitos imponderáveis) nos coloca. O mundo que conhecemos vai mudar muito. Seria bom que agíssemos quanto antes em conformidade.” (Ricardo Cabral, PÚBLICO, 21 de dezembro de 2020).
Lembro-me de uma das ‘surpresas’, partilhada com um conjunto de colegas, no inicial contacto com a sociedade estado-unidense: a quantidade de bolseiros que por lá frequentava as universidades, sobretudo da América do Sul, bastante crítica do sistema norte-americano.
Certamente por tal imagem não corresponder à que nós próprios tínhamos dos E.U.A.. A mesma que, um dia, nos levou a desafiar o slogan, então frequente no para-brisa traseiro de muitos carros, em Boston: “think globaly, act localy” (pensa globalmente e age localmente). E a garatujar, em festa para que fôramos convidados, na parede da casa disponibilizada para o efeito, o respetivo contraponto: “think localy, act globaly”. O que nos parecia muito mais consentâneo com a geral mentalidade do ‘americano-comum’ ou, pelo menos, com o nosso estereótipo dele.
Talvez tenhamos, por essa altura, dobrado os vícios de uma certa colonização mental estruturalista (que, na sua redutora acessibilidade, precisa do mundo ‘clarificado’ por um ‘tratado de Tordesilhas’, esbanjando, embora, muito do pormenor da conflitualidade social e, nele, algum privilegiável apoio).
É que era então possível, naquele contexto académico, vislumbrar resquícios da infraestrutura democrática tão entusiasticamente descrita A. de Tocqueville e até elogiada por F. Engels (DEBITA NOSTRA CXLVIII). E uma sensação de ‘mundo-inacabado’, a que se tornava indispensável aderir com uma mentalidade atenta ao inesperado, a qualquer solúvel novidade que pudesse advir da mais (extra)vagante das ideias.
Provavelmente a mesma que por lá deambulava ainda, em certos círculos políticos, como o que Obama descreve, a propósito da formação do seu Gabinete: “As discussões eram acaloradas, a discordância era encorajada e nenhuma ideia era rejeitada por vir de um colaborador mais jovem ou por não se enquadrar numa predisposição ideológica em particular” (Uma terra prometida, pp. 250).
E se isto explica a dita abertura ideológica, diz também do espírito de iniciativa e da capacidade empreendedora que tal praxis democrática potenciava. A que a globalidade do sistema pudesse comportar.
Não pode é o nosso conhecido “realismo” querer “sol na eira e chuva no nabal”. Ou seja, quedar-se pelas formalidades democráticas indispensáveis ao discreto avantajar de um sistema económica e socialmente enviesado. Como, de resto, não se cansa de ‘real’ e recorrentemente recordar. E que, agora, desafiado por uma desconcertante pandemia, a pretexto de não ver alternativas, vive “habitualmente” a pensar “dentro da caixa”, no genuíno intuito de as evitar.