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Debita Nostra CLXXXV

Luís Costa - 02/06/2022 - 9:45

“Neste sentido o fosso digital é um feixe de diferentes desigualdades que convergem para gerar resultados digitais desiguais – não uma mera divisão no acesso à Internet ou a computadores portáteis, mas a divisão em relação ao fornecedor de acesso à Internet, em relação ao interesse, às oportunidades relevantes ‘online’, ao tempo para a utilizar, à formação, qualidade de ligação, acessibilidade, etc. (Mariana Mazzucato, 2021, Economia de Missão, pp. 185).

O combate ao aquecimento global, e seus efeitos sobre o planeta, bem como à crescente degradação e rarefação de muitos dos seus recursos naturais é hoje, certamente, causa capaz de agregar vontades com significativo impacto em termos de mudança estrutural. Não será a única e outros ‘inimigos’ haverá com capacidade para suscitar o ‘toque a reunir’ indispensável a qualquer decisiva mudança (DEBITA NOSTRA CLXXXIV).

Um deles, ou que pelo menos tem sido apontado como tal (João Ferro Rodrigues, 2021), é o que resulta da presente transição para o mundo digital e do consequente “risco do fim do livre-arbítrio tal como o conhecemos” (pp. 208).

Com efeito, a geral divulgação da Internet, e dos seus contributos para o sistema económico, tem também vindo a alargar a consciência de como, quase impercetivelmente, nos fomos convertendo em alegre mercadoria, por demais favorável a inusitados lucros. Sobretudo, enquanto partes de um processo tanto mais atraente quanto prestador de serviços que ‘gratuitamente’ nos vão chegando.

Só que os “servidores” também se servem. E, de simples ‘produto’ (base-de-dados) para venda, fomos progressivamente passando a ‘matéria-prima’, vertida em sofisticados pacotes, que as grandes empresas digitais comercializam. E que, numa tradicional insaciabilidade, cada vez mais utilizam como pretexto para nos ir ‘invadindo’ no trabalho, no carro, em casa, na intimidade…

E já vão usando para influenciar as nossas decisões, se é que não para interferir nas nossas mais enraizadas predisposições mentais. E para nos baralhar quanto à perceção que fazemos da realidade, por uma promíscua confusão entre factos e “factos alternativos”. No que alguém (Shoshana Zuboff, Harvard Business School, 2019) pôde chamar de “capitalismo de vigilância”.

Vemos, assim, que é a própria democracia, como eventualmente a desejamos, que agora corre perigo. Ela que, nunca tendo sido perfeita, também não pode ser tida como um valor tão universal quanto idealizaríamos (DEBITA NOSTRA CLXXXIII).

É neste particular que tal ‘inimigo’ se distingue do das alterações climáticas, naquilo em que estas constituem uma ameaça muito mais generalizada. Mesmo que não seja ainda difícil descortinar um diferente apetrechamento social na forma de lidar com os seus desmandos.

As ‘defesas’ em relação ao impacto da transição digital são muito mais desiguais nas suas condições de acesso e na consequente capacidade de fazer escolhas. O que só releva a questão da propriedade dos dados pessoais e do controle que sobre o seu uso possamos ter.

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