As apreciações que os professores conservam, dos seus alunos, fazem assim parte integrante do estudo da seleção implícita na escola. Elas misturam informação e opinião, conhecimento e paixão. As palavras assumem, por vezes, o exorbitante poder de uma sentença. Em que discursos e práticas se confundem e definem o futuro escolar de um aluno de acordo com a perceção dele já existente.” (Tradução livre de S. Mollo-bouvier 1986, “La sélection amplicite à l’école”, pp. 231).
A ideia é aqui a do contributo da escola para a alocação, nas nossas sociedades, de um princípio “lúdico e de prazer” que pode bem ter levado a que nelas se reaja com “depressão, torpor e fúria” ao menor “avanço das contrariedades” (DEBITA NOSTRA CXC). O que, no meu entender, não pode ser desligado de um outro seu papel na sustentação do mito fundador da ideologia liberal: o de que a liberdade (em abstrato) garante só por si uma leal competição e não o dissimulado benefício de quem parte em vantagem.
A literacia foi, durante séculos, uma competência social restrita que, desde logo, cabia a quem evidenciasse uma particular “aptidão para as letras”. E não terá sido o tímido franquear da escola, com que o liberalismo também rompeu a precedente ordem social, que veio alterar tal entendimento das coisas.
As irrecusáveis vantagens da escolarização, como a de veículo de ascensão social, vieram, porém, instigar a progressiva universalização da escolaridade (escola de massas), com as consequentes oportunidades de mobilidade. Mas sem que o veredito da escola alguma vez tivesse perturbado o geral traçado da corrente estratificação social.
E sem que o senso-comum a destronasse enquanto dedicado agente de demarcação de fronteiras entre a “esperteza” e a “burrice”. O que, de resto, teria confirmação nos percursos dos que, na escola, superavam as maiores dificuldades, se não tivesse vindo a ser questionado pela proliferação das estatísticas escolares: ou a ‘Providência’ distribuía a sageza conforme a origem social, ou outras variáveis interferiam nesse processo.
Desde cedo a investigação (Bourdieu e Passeron, “Les Héritiers”, 1961) superou o imediatismo das ‘oferecidas’ explicações económicas, percebendo como os rituais escolares exigiam a certos alunos uma “aculturação”. Enquanto, a outros, se permitiam até alguma displicência, dada a abundância de recursos com que os podiam (i)lustrar.
Foi pelos anos 70 que Basil Bernstein veio esmiuçar estes “códigos” educativos, inteirando-se de como certas culturas se distinguiam pela sua muito maior estruturação e diretividade e uma diversa sustentação no individual/social. Apetrechando diferentemente para as lides escolares, e, sobretudo, para as ‘defesas’ face aos ‘alegres’ apelos das pedagogias não-diretivas. Com a agravante da particular ênfase dada às aprendizagens por imitação.
Gerando percursos escolares muito mais atraídos pela ‘formalidade’ do que pelo neles importa de ‘sentido’, de esforço e dedicação.
E regateadas ‘expectativas’ perante a ‘universal’ certificação da escola.