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Debita Nostra CXLV

Luís Costa - 03/09/2020 - 8:00

“Os clubes de futebol em Portugal não ficam rigorosamente nada atrás dos exércitos de Trump, Bolsonaro ou Modi na Índia (…). Os assessores passaram a ser diretores de propaganda, criaram estruturas que não aceitam qualquer ideia de independência fora dos seus universos e trabalham isso nos canais dos clubes, e depois nas redes sociais de forma sistemática e permanente.” (Ricardo Costa, Público, 29-07-20).

Não se trata aqui de advogar qualquer forma de censura ou de sonegar qualquer direito à representação política. Trata-se de salientar um novo contexto comunicacional e de alertar para como ele dá expressão a uma alargada base social que, à partida, nem precisaria de quem a representasse ou encabeçasse. E para os desafios que isso coloca à democracia representativa, não só por dispensa de representação (DEBITA NOSTRA CXLIV), mas por sugestão de uma desgovernada ‘democracia’ direta de imponderáveis resultados.

Ameaçando os próprios fundamentos democráticos, naquilo em que apela à genuinidade e ao desperdício de qualquer tipo de edição, se é que não à eleição de protótipos que melhor encarnem instintivos ‘direitos de autor’, na sua propensão para a ‘autoridade’.

No caso dos média, e em conformidade com uma estrita ideia de mercado, ou de sobrevivência, a propensão é para seguir na onda que, de há muito, já deixou de ser de curto ou médio alcance.

Refletindo também as mudanças por que vem passando a classe média, na sua fragmentação e poder de arrasto sobre os estratos mais ‘populares’ (DEBITA NOSTRA CXLII). Em particular, quando lhes assume os trejeitos, nem sempre sob o mesmo pretexto ou justificação.

O futebol ganhou foros de ‘popularidade’, na medida em que se tornou um desporto que facilmente suscitava processos de identificação. E se, num primeiro momento, eles passavam por afinidades locais, depressa alguns clubes adquiriram um estatuto de ‘nacionalidade’, já que davam acesso a uma competição que permitia ‘ganhar’, a quem de ganhos, na sua vida, teria muito pouco.

Para a classe média era sensivelmente diferente. Num jogo que fazia lembrar as relações entre advogados, no trato social e na barra dos tribunais. A regra era ser o mais tendencioso possível a favor do clube de eleição. Na certeza de que, mesmo que o exercício se prestasse a alguma catarse, em nada afetava a bonomia do relacionamento pessoal.

Eis senão quando, a partir de dada altura, tudo se cofunde, nem tanto devido a uma sôfrega busca de audiências, quanto ao conjunto das mudanças sociais em curso que as claques, mas não só, de certo modo prenunciaram. Com palpáveis consequências políticas.

E se nessa reconfiguração se processam indesmentíveis traços de genuinidade, dá-se também uma osmose de preferências que permitem invocar o ‘povo’, num sufrágio que sempre se disse ‘popular’.

Se é que não tomar a parte pelo todo, como vai acontecendo nalgumas paragens.

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