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Debita Nostra CXVII

Luís Costa - 11/07/2019 - 11:38

“‘Nós, os nossos filhos e as nossas filhas somos numerosos, vendamo-los e compremos trigo para que possamos viver e comer’. Outros diziam: ‘Somos obrigados a empenhar as nossas terras, as nossas vinhas e as nossas casas para termos trigo para matar a fome’. Outos diziam: ‘Tivemos de pedir dinheiro emprestado para pagar o tributo ao rei e empenhamos as nossas vinhas e os nossos campos. (…) E nada temos para as resgatar, porque os nossos campos e as nossas vinhas passaram já para as mãos de outros’.” (Ne. 5, 2-5)

Aqui chegados e confrontados com uma crise estrutural que oscila, mas de que se não vê o fim, talvez consigamos a humildade de um outro olhar sobre as sociedades tradicionais. Não para que as reproduzamos, nas suas limitações, mas para que, do alto da vertigem de um deslumbrado e indomável progresso, algo possamos reter da sua experiência milenar.

Não creio que a atual preocupação com os “direitos das gerações futuras” (DEBITA NOSTRA XCVI) seja uma situação histórica inédita, dada a recorrência com que apareceu associada ao emplastro das dívidas e consequentes formas de servidão.

É claro que as vivências de muita da atual juventude (desemprego, precariedade, desregulação do trabalho, dependência, indisponibilidade para constituir família) não se confundem com as da escravatura. Já mais persistente, porém, parece ser a estrutural voracidade que lhes está na origem, independentemente da narrativa com que se possa (des)legitimar.

Ora, a noção de tempo com que lidavam as sociedades tradicionais, abria-as a uma ‘sabedoria’ (teleologia) dificilmente compaginável com os imediatismos do presente. Sujeita naturalmente à contingência das interpretações humanas, nem por isso a sua ideia de “dívida primordial” para com a divindade e/ou a natureza e/ou o grupo social deixava de ser um referente pelo qual tudo o mais se poderia avaliar.

Na tradição judaico-cristã (AC), os títulos de tal dívida atualizavam-se em sacrifícios rituais de ação de graças/expiação dos pecados (Ex. 29; Lv. 3, 4, 5 e 16), de imolação das primícias (Ex. 22, 29-30; Dt. 26, 1-12) e de “resgate” pessoal (Ex. 30, 12-16). Tendo como contrapartida um inesgotável crédito: “abençoar-te-ei e multiplicarei a tua descendência como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. (…) E todas as nações da terra serão abençoadas na tua descendência, porque obedeceste à Minha voz” (Gén. 22, 17-18).

O mais interessante é que esta proclamação se segue àquela que, no texto bíblico, é uma das suas mais perturbadoras passagens (DEBITA NOSTRA XIV). Deus acabara de poupar Isaac depois de ter ordenado a Abraão a imolação do próprio filho.

Quem a partir daí poderia exigir o sacrifício dos filhos, se o derradeiro “Credor” o não fazia?! Estava consolidada uma demarcação civilizacional e traçado um limite que, na proporção, podemos hoje já estar a transgredir!

 

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