“O mais recente ciclo de protestos sociais a que o mundo assistiu na última década (em especial no período de 2009-2013) transporta um conjunto de lógicas e dinâmicas inovadoras, por contraste com anteriores movimentos sociais, sendo um desses traços a forte presença de lógicas e subjetividades de classe média.” (Elísio Estanque, “Onde pára a classe média? Breves notas sobre o conceito e a realidade portuguesa”, Sociologia – Problemas e Práticas, nº 83, 2017, pp. 37-54).
Creio que tanto o destaque dado aos novos movimentos sociais, quanto iniciativas como a do evento “Economia de Francesco” (de Assis), promovido pelo Papa, se inscrevem na crescente consciência do papel dos jovens na mudança social. E de como esta se torna urgente para atender aos problemas por ele enunciados (DEBITA NOSTRA CXVI), desde logo, no uso de uma reconhecida “virtude”: a da esperança que se não embota, uma vez “que faço novas todas as coisas” (Ap. 21, 5).
Com efeito, a presente situação da juventude, em geral, parece atrair todo um conjunto de ingredientes propiciadores de mudança que não só o do irrecusável crédito de tempo que lhes advém da idade.
São eles a principal vítima da moda da precarização, num contexto ímpar de criação e acumulação de riqueza. São eles os mais bem preparados para a produzir e potenciar, mercê de uma apetrechada capacidade tecnológica. São eles os detentores de uma experiência única de internacionalismo, ou seja, da escala e da massa crítica necessárias à lide com os atuais problemas globais. São eles os pioneiros de uma viva sensibilidade à deterioração dos recursos naturais e aos distúrbios ambientais e ainda os mais afoitos a urdi-los na trama de uma abrangente utopia, sem a qual se não tecerão significativas mudanças.
Tudo isso não invalida, porém, que o algo difuso conjunto dos jovens “millennials se possa cruzar com o mais delimitável conceito de classe social, na medida em que este se tem elegido como a normal referência na aferição dos processos de mudança. Sobretudo, tendo em conta a sedimentada convicção de que estes dependem da particular iniciativa de uma determinada classe, ou mesmo da combativa verve do reminiscente proletariado.
Subestimando, assim, quem não possui o adequado “toque de classe” ou não ostenta a “patine” dos que, estando sempre lá, o transmutaram para a generalidade da “classe trabalhadora”, preferencialmente a dotada da resiliência física a que obrigavam as sequelas da Revolução Industrial.
Expondo-se, embora, ao cotejo da crença com a irrequietude das transformações por que vêm passando as nossas sociedades e o mundo do trabalho, nomeadamente no acrescento de uma polícroma classe média, supostamente vocacionada para almofadar tão ‘predestinado’ confronto.
A mesma que, cultivando a individualidade, ora se frustra com os atuais estrangulamentos da ‘sua’ mobilidade social, ora parece inspirar a inorgânica rebeldia destes “novíssimos” movimentos sociais.