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Debita nostra CXXXVI

Luís Costa - 16/04/2020 - 10:06

 

Acho que temos um problema grave de imobilidade social. Somos ainda um país em que existem fenómenos de nepotismo e elites endogâmicas. (…) Digo isto com a consciência de que falo do lado dos privilegiados desta história, mas é ofensivo pensar que os meus filhos à partida têm maior probabilidade de ter mais sucesso na vida do que os filhos dos cidadãos que só tiveram o azar de nascer no sítio e na família errada. Esse é um problema a que não damos a centralidade necessária.” (Pedro Norton, P2, Público, 01-03-20).

Apesar do papel do iluminismo e do liberalismo na divulgação da escola, não se pode dizer que eles visassem a sua democratização. E se atendesse, assim, às críticas sobre a impreparação do “povo” para o “sufrágio popular”, ‘dispensando’ o controlo censitário do voto e os muitos filtros do sistema de representação (Debita Nostra CXXXV).

Como na nossa “reforma” pombalina, o “povo”, cujos melhores sempre puderam aceder à mobilidade pela formação eclesiástica, permaneceria arredado, do entendimento sequer, do projeto escolar. O qual, perante a indiferença da aristocracia, seria assumido pelos estratos sociais burgueses (A. Nóvoa, Le Temps des Professeurs, 1987), com o benefício de quem parte e reparte.

Rompendo com a arrumação social do Antigo Regime, o liberalismo revolucionário não só lhes franqueava as portas, como lhes disponibilizava uma conveniente abstração: que tudo resultava da liberdade de que o “povo” podia igualmente usufruir.  Instituía, deste modo, uma nova configuração social e a ‘oportunidade’ de, individualmente, a ela se aceder (mobilidade social). Mas, conferindo-lhes uma não negligenciável vantagem, exponencialmente reprodutível.  

E, sendo a escolaridade o mais útil apetrecho para tão florescente reconfiguração, seria também a escola o seu mais prestável instrumento, a senha para um disputado reconhecimento social, tão mais precioso quanto rarefeito. Daí que, salvo em momentos históricos muito pontuais, os ditos “nepotismo”, “endogamia” e “imobilidade social”, tenham sido a regra e não a exceção. E que a distinção social através da escola, árdua conquista da classe média, seja ainda hoje o ‘território’ que esta ciosamente defende.

Ao invés dos contextos em que a literacia foi bem-vinda, pelo imperativo da leitura da Bíblia. 

Os que Max Weber interpretou (“A ética protestante”…, 1909) numa tese que é possível revisitar, sem mais fundamento empírico.

E se o elam mobilizador da diligência económica não foi tanto a crença na predestinação e a necessidade de demonstrar a pertença ao grupo dos eleitos? Mas, mais pragmaticamente, uma fomentada mobilidade social (“american dream”?), firmada na retoma da tradição carismática, em que o dom de cada um era também o benefício da comunidade?!

A mesma que não prescindia de uma regulação de proximidade, não por competição ou inveja, mas pela geral valorização da virtude da frugalidade que ainda Adam Smith cuidava ser uma característica do género humano!...

 

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