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Debita Nostra CXXXVII

Luís Costa - 30/04/2020 - 9:55

Um olhar periférico sobre o processo de escolarização acentua a urgência de se reequacionar, em Portugal, a relação entre educação e desenvolvimento; como se pretende equilibrar a distinção social através da escola com a preparação escolar da generalidade da população, já que muito do que se faz no sistema educativo está longe de contribuir para a criação de uma sociedade mais produtiva e democrática”… (L. Costa, “Culturas e Escola”…, 1997, pp.20).

Qualquer distinção entre desenvolvimento e crescimento económico obriga a que se olhe para a respetiva relação com a democracia, tanto mais quanto o recente ‘sucesso’ do chamado capitalismo asiático veio destronar a sua imediata associação.

Por outro lado, não parece que uma ambição desenvolvimentista possa esquecer a necessária aposta na educação, quer em termos de produtividade, quer de capacitação para a democracia, o que aqui reconvoca o tema da preparação do “povo” para o “sufrágio popular”.

E a questão de como os sistemas educativos se orientaram mais no sentido da formação possível da generalidade da população, ou no de uma seleção escolar, discretamente colada à função de distinção social pela escolaridade, cioso ‘feudo’ da classe média (Debita Nostra CXXXVI).

Pelo meio, o conjunto dos docentes, prisioneiro de objetivos geralmente abstratos e essencialmente dividido entre um brio de classe, como demonstração viva da ascensão social através da escola, e o quotidiano tributo escolar aos mecanismos de estratificação social.

E se este é devedor do pensamento liberal, no pressuposto de que, em liberdade, todos se equivaleriam no “mercado” do desempenho académico, também muito deve à disputa social pela escola, à indispensável ideia de que nela apenas se cuida do mérito de cada um.

Ideia-obstáculo das políticas democráticas orientadas para a geral formação da população, tanto mais quanto profundamente enraizada no senso-comum sobre a escola, de que participarão muitos dos seus profissionais e respetivas organizações. 

Quando nos anos 80 se assumiu, em Portugal, uma política específica de preparação de professores para a “escola de massas”, foi imediato o propósito de apoucá-la. Com o registado fervor dos sindicatos, a merecer uma conceituada tese de doutoramento!...

Ou porque fosse incipiente, rejeitando-se a inovação. Ou porque, “caídos os parentes na lama”, as hierarquias sociais obrigavam ao esquecer da própria experiência e do coligido anedotário de como se ‘fazia’ um professor. Ou porque, numa perspetiva estruturalista, que apenas ensina a dividir por dois, cuidando opor-se ao poder, se assumiam como fiéis aliados do poder instituído dentro do campo do saber. O qual só serenaria quando tudo consequentemente piorou e a situação ficou ‘normalizada’!...

Não espanta, assim, que o imperativo do sucesso para todos, no ensino básico, seja entendido, na “vox populi”, como uma venda do saber a patacos. Ou que o novo-riquismo político e académico se empenhe em desterrar para um vão-de-escada a formação de professores!

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