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Debita Nostra XCII

Luís Costa - 26/07/2018 - 8:30

A sociedade de acolhimento sente muitas vezes a presença de imigrados como uma ameaça à sua própria identidade. Como se a identidade fosse uma coisa congelada que se tem ou não. Creio, pelo contrário, que ela é qualquer coisa que se constrói permanentemente ao longo da vida. Penso mesmo que é o encontro com o diferente que revela e confirma o que a constitui.” (Tradução livre de E. Lassida, “Le goût de l’autre – La crise, une chance pour réinventer le lien”, pp. 197-198).

Eu a falar da Europa, a propósito do Estado-social, e mais uma vez o ‘outro’ (não idêntico) aí está, com a sua useira ‘impertinência’, a beliscar identidades e a lembrar os (des)encontros, em que a História se arrasta, a quem preferia dá-la já por terminada.

Mas a memória é curta. Não houve quem quisesse, há oitenta anos, encontrar uma “solução” para o ‘problema’ judeu?! E que dizer da expedita punição com que, mais recentemente, se ‘resgatava’ o povo grego, para servir de exemplo a ‘outros’ dos PIGS (porcos) do Sul?!

Evoquemos, então, o salto civilizacional da proclamação de Paulo: “não há judeu, nem grego, nem escravo, nem liberto, nem homem, nem mulher”… (Gal, 3:28), agora invocado (Rom, 13), a propósito de uma lei que se presta a ‘enjaular’ crianças para as separar dos pais. A quanto obrigas, civilização!…

Temos hoje dificuldade em situar a emergência do ‘individual’ e como nas sociedades antigas a pessoa não tinha qualquer expressão (existência) fora do contexto do seu grupo social. Foi com a modernidade que se puderam destacar os interesses do ‘eu’ e acatar uma ‘egoísta’ acumulação do rendimento, cujas sequelas se chegaram a prevenir pela eliminação e distribuição do excedente (potlatch, anos sabático e jubilar). 

Os ganhos foram múltiplos, assim se tivessem acautelado outros efeitos secundários. Os mesmos que Thomas Hobbes destaca, nos primórdios do liberalismo, com a metáfora Leviathan (1651): o monstro que domaria a espontânea voracidade e violência na busca de vantagem sobre o ‘outro’. Estou em crer, porém, que a maior perda foi a da consequente subalternização do estímulo empreendedor que sempre representou a apreciação pelo grupo e respetivo prestígio social. 

Elam que, na ausência do interesse individual, cimentava a coesão das sociedades tradicionais, onde Émile Durkheim encontrava uma “solidariedade mecânica”. A solidariedade imediata de quem partilha (depende) o quotidiano, por contraposição à das sociedades modernas (“orgânica”) que seria preciso estruturar.

No fundo, a mesma diferença que Elena Lassida, explorando o texto bíblico e apontando à economia, encontra na complementaridade entre “aliança” e “contrato”, o contrato social (Rousseau) em que os parceiros convergem pelo simples temor da reciproca agressividade.

No cerne da questão, a relação com o ‘outro’ que, apesar dos desafios civilizacionais e da sua atual estilização, sempre se prestou à dívida e à respetiva servidão.

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