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Debita Nostra XLIV

Luís Costa - 08/09/2016 - 9:03

A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito que se tornam o quinhão de um pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários” (Leão XIII, Rerum Novarum, 1891).
Não é crível que ao destacar tal “pequeno número”, em 1891, Leão XIII pudesse antecipar o 1% da população a que hoje se referem as estatísticas da distribuição do rendimento, e de que tem tratado o “Occupy Wall Street” (The Economist, 21-01-12). Mas, bem vistas as coisas, nada haverá de qualitativamente distinto entre estes dois conjuntos de “ricos e de opulentos”. Como também não parece haver entre o “temível conflito” de que se ocupava a encíclica leonina e o “mundo em guerra” de que agora fala o papa Francisco. 
Ora, partindo do enunciado pressuposto de que a história se não repete, por se não reproduzirem os seus contextos, mas que é nela comum, entre os que mais a esquecem, a repetição dos mesmos erros (DEBITA NOSTRA XLII), olhemos para as duas situações.
Creio não haver dúvidas quanto à teoria económica que hoje sustenta uma “economia que mata” e de como não é distinta da que, numa fase mais embrionária, é apontada aos fundamentos de tão arrastado e “temível conflito”. Sofisticou-se, é certo, após um breve período de poisio. Ganhou laivos de modernidade e o ápodo de “neo”. E, após conhecida reabilitação, uma vocação totalizante (TINA), a partir dos anos 80 do século XX. O mesmo período a que remonta o renascer de um “mundo em guerra” que parecia ter-se interrompido com a ferocidade de dois alargados conflitos mundiais.
São hoje conhecidas as reais razões que, em relação ao primeiro, levaram as potências europeias a disputar as respetivas colónias e a nelas desenvolverem gerais políticas de “régua e esquadro”, de que ainda hoje aturamos as consequências. 
E bem sabidas as razões do posterior ascenso da extrema-direita, na Alemanha, em particular, com a vitória eleitoral do partido nazi. E por que foi ele ganhando influência, com medidas que ainda hoje podem perdurar no sistema de proteção social alemão. (A alertar os distraídos para que as posições conjunturais, em política, são sempre coerentes com o projeto último de sociedade que se tem).
Mas, não menos significativo, foi o constante clima de tensão que atravessaria todo o nosso século XIX e princípios do XX, com batalhas e massacres, revoluções e sublevações, convulsões e atentados, a lembrar o “mundo em guerra” de que hoje se trata. Sobejamente sustentado pela mais corrosiva conflitualidade que marcava o quotidiano de “indigência da multidão”, pois, “os trabalhadores isolados e sem defesa” tinham-se visto “entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada” (Rerum Novarum).
Haveria outras razões. Mais quais delas sobravam à inspiradora lógica de Adam Smith e aos seus mais sofisticados desenvolvimentos?!

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