Neste contexto, embora não acredite que a globalização possa ser evitada, creio ser conveniente o retorno a uma maior intervenção estatal de modo a que os países, tendo em conta a respetiva realidade, participem na globalização, evitando problemas induzidos pelo liberalismo.” (Óscar Afonso, “Globalização, economia, exclusão social e intervenção estatal”, PÚBLICO, 06-03-16)
A grande vantagem do atual sistema financeiro, com a imoral amoralidade que se lhe reconhece, reside, a meu ver, numa indomada fluidez que se não detém aos mais reforçados diques ou às mais bem delineadas fronteiras. E, muito menos, com obstinados esquemas mentais, sorvidos no caldeirão para que tombámos em pequenos, auridos do pronto-a-usar dos (a)costumados media, se é que não fruídos no saboroso deleite dos “gloriosos, a quem Deus dispensou de procurar a verdade” (Gedeão).
Um deles é o do enfoque com que nos habituámos a conceber o Estado, profetizando-lhe as mais extraordinárias capacidades, de que sempre, sob diferentes formas, poderíamos vir a socorrer-nos, perante o desconforto de uma situação que nos escapa e que podemos pressentir como ameaçadora.
É o caso da atual amplitude dos processos de integração económica, com a internacionalização do capital, da produção e do mercado; o surgimento de novas áreas e produtos, a pulverização do processo produtivo e a aglomeração das empresas, a sombrear muitas das nossas instituições; o desenvolvimento tecnológico, a encurtar tempos e distâncias, a encolher padrões e a esbater, mas também a enquistar, diferenças culturais; a privatização dos espaços e das condutas; o crescimento dos níveis e das exigências de consumo; a concentração do rendimento e o acréscimo das desigualdades comparadas; a caducidade das fronteiras e circunscrições reguladoras; e o aumento da desproteção, da insegurança e da conflitualidade internacionais.
Sem que por isso deixemos de contar com o Estado a que nos habituámos apelar, mesmo num contexto em que de muito pouco nos pode valer. Desde logo, em termos de almofada amortecedora do impacto de um mercado global: os que, aceitando as regras do jogo e sabendo que o protocolo é hoje o da feroz concorrência, pensam, em abstrato, como se bastasse seguir a receita dos “bem-sucedidos” para com eles poder competir. Depois há a reação nacionalista. A começar pela dos que, mais desprotegidos, embarcam na ilusória miragem da concha protetora do Estado-nação, exorcizando conquistas civilizacionais e esconjurando o “outro” com que agora o mundo se tem de partilhar. Mas também a do nacionalismo calculado em que, lido o manual, a “questão nacional” seria o pretexto para o reatear de um saudoso internacionalismo, mesmo que esvaído pelas conhecidas experiências e pela perda dos parceiros com se haveria de cerzir.
Ora, por difícil que seja, o remédio só pode ser proporcional ao mal e a resposta reguladora ou será inter(nacional) ou não será. Mas não certamente só ao nível da superestrutura política, perdidos ou desperdiçados os eleitorados nacionais. E esquecendo, de permeio, alguma questão ética de que talvez valha pena falar…