Ao aproximar-se o dia de finados - fiéis defuntos para os católicos – todos os caminhos vão dar aos cemitérios. Ramos e mais ramos de flores, naturais ou artificiais, vão ornamentando os cemitérios, transformando-os em aprazíveis jardins. Também não faltará a limpeza das campas, esquecidas ao longo do ano. Há mais vida para além dos familiares falecidos...
Hoje, quando morre alguém, familiares e amigos não regateiam a oferta de um ramo de flores para ficar depositado no cemitério. A dor da separação é assim mitigada, com este gesto de carinho pelo falecido.
Para que todos saibam da morte de alguém, com frequência, os familiares enviam a notícia para publicação nas páginas da necrologia dos jornais. Deste modo, os laços entre os vivos e mortos são assinalados e recordados pelo maior número de pessoas. Uma maneira, usada com frequência, para prolongar a memória do defunto.
Estes gestos, de grande humanismo, interrogam-nos acerca do modo como na história da humanidade, as diversas civilizações souberam lidar com a realidade da morte.
Iniciemos a viagem pelos Neandertais, nossos parentes humanos mais próximos, que, há cerca de 28 mil, anos desapareceram em plena Península Ibérica, e que se cruzaram com o Homo Sapiens. Foram precisamente estes povos que nos deixaram alguns vestígios, encontrados pelos arqueólogos nas suas sepulturas, que nos provam que eles já enterravam os seus mortos, depositando junto deles alguns objectos.
Caminhando na história longa, vamos encontrar no Egipto a maior manifestação da ligação do homem com a morte. As pirâmides, sepulturas dos Faraós, com mais de 3.000 anos, aí estão para serem testemunhas de como esta civilização encarava a vida após a morte. Podemos afirmar que os faraós, durante a sua vida, se preocupavam em absoluto com a sua hipotética vida para além da morte. Para que nada lhes faltasse no além, os seus túmulos eram recheados de objectos preciosos e diários que o Faraó tinha usado na sua vida. O Livro dos Mortos que nos deixaram revela bem de como esta civilização levou tão longe a crença da vida após a morte. A viagem para o além era levada a sério não se poupando esforços para que nada faltasse ao Faraó depois da sua morte.
Outras Civilizações lhe seguiram em que a morte era tratada com todo o carinho e piedoso respeito. Nomeadamente a Civilização Romana que considerava a viagem da alma do defunto para o além cheia de perigos e vicissitudes. Por isso, invocavam a protecção dos deuses tutelares encarregados de acompanhar e guiar o defunto para a sua outra morada que se situa nos lugares inferiores da terra.
Assim chegámos ao declínio da Civilização Romana e entramos em plena Idade Média, onde o culto aos mortos foi conquistando uma grande devoção uma vez que os cristãos acreditam na Ressurreição dos Mortos. Para estes “a vida não acaba, apenas se transforma”.
Agora, será altura de perguntarmos de onde vem esta tradição tão enraizada na Civilização Europeia e que chegou até nós.
A solenidade da Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, dia 2 de Novembro, a seguir ao Dia de Todos os Santos no 1º de Novembro, também é conhecida hoje como Dia de Finados.
Como recordámos, os povos pagãos da antiguidade já conheciam certos dias de comemoração dos seus mortos, como a designada “Parentalia” dos romanos, celebrados de 13 a 22 de Fevereiro. De início, os cristãos conservaram estes costumes dos romanos que lhes pareciam compatíveis com a sua fé.
Mas desde o séc. II, encontramos testemunhos de que tais comemorações incluíam orações pelos mortos sendo logo associadas à celebração da missa. Começaram inicialmente no 3.º dia depois do sepultamento. Não tardando a missa do 7.º e 30º dias. A prática de dedicar um dia a comemoração de todos os fiéis defuntos aparece pela primeira vez com o bispo Isidoro de Sevilha que morreu em 636. Ordenou aos seus monges que oferecessem o sacrifício da Missa pelas almas dos defuntos, no dia seguinte ao domingo de Pentecostes. Mas o verdadeiro ano do nascimento do Dia de Finados é o de 998 quando o Abade de Cluny decretou que em todos os mosteiros se fizesse a comemoração festiva de todos os Fiéis Defuntos. Rapidamente, esta comemoração se propagou por toda a Europa Cristã, através dos numerosos mosteiros medievais.