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Digressões Interiores: Carta aberta à Junta de Freguesia de Sarzedas

João Lourenço Roque - 05/03/2026 - 8:30

Agora que os nossos autarcas tomaram posse, lembrei-me de efetuar um conjunto de pequenas sugestões.

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Era Novembro a correr para o Natal. Amanheceu e continuou chuvoso o dia sete, afastando-me da apanha da azeitona. Deu-me para ir até Castelo Branco. Assentei arraiais no café "As Tílias" que tanto gosto de frequentar e onde espaireço na ilusão de que tarde ou cedo aparecerás. Entreguei-me a algumas leituras, mas depressa fugi para a escrita.

Agora que os nossos autarcas iniciaram os seus mandatos e os seus compromissos com as comunidades locais, lembrei-me de dirigir uma espécie de "carta aberta" à Junta de Freguesia de Sarzedas, com um rol de pequenas ou grandes sugestões. Ninguém me encomendou o sermão e suspeito que o mais certo será as minhas ideias caírem em "saco roto". Nem assim desisto porque nunca fui pessoa de cruzar os braços e de comodamente permanecer no meu cantinho, indiferente aos deveres de cidadania e aos laços comunitários. Então, à mistura com cordiais saudações e os melhores votos para os nossos autarcas, aqui vai o meu "relatório", insistindo em antigas e novas aspirações. Sublinho que o mais importante será nunca perder de vista as luzes da fraternidade e o espírito comunitário, congregando as pessoas - todas as pessoas - mediante ajuntamentos e convívios diversos. Com a regularidade possível e de modo especial na sede da freguesia, conviria organizar ciclos de conferências, exposições, almoços festivos e tardes culturais, recorrendo a artistas "estrangeiros" de nomeada e aos talentos conhecidos e desconhecidos de muitos sarzedenses. Gente nossa, aqui residente ou em Castelo Branco, que sabe tocar e cantar, dizer histórias e poesia…Outra forma essencial de nos juntarmos e conhecermos será viajar em grupo à descoberta dos "paraísos" e dos segredos do nosso território, tão vasto e encantador, agendando passeios e caminhadas, de norte a sul, de leste a oeste. Sem pressas e correrias, demorando-nos nos vestígios arqueológicos, nos monumentos e devoções do passado, na observação da natureza e da vida selvagem, na apanha de frutos silvestres. Passeios e caminhadas, por lombas e outeiros e nas margens, suaves ou agrestes, dos nossos rios e ribeiras. Horizontes, conversas e lembranças sem fim. Partilha de merendas fartas e deliciosas, nas horas próprias, retemperando o corpo e a alma. Se quiserem ou entenderem poderei fazer de "guia", sugerindo oportunamente aliciantes percursos, em diferentes linhas e ramais, que, por ora, me abstenho de apontar para não estender em demasia esta crónica. Mudo de assunto, em termos reais ou aparentes. Não nos faltam lindas aldeias, mas desfeadas por montões de ruínas, lixeiras e silvados paredes meias com belas casas. Para bem das paisagens urbanas, da estética urbanística e da qualidade de vida, espero que os dirigentes autárquicos em articulação com as instituições competentes diligenciem no sentido de ultrapassar estes e outros desleixos e atropelos. No âmbito dos equipamentos sociais, recreativos e turísticos, permito-me sugerir alguns exemplos que bem chamativos e proveitosos seriam: piscinas, pousadas e parques de campismo nas Sarzedas (na "serra da vila") ou no "Vale da Santa" ou em São Domingos, no planalto da capela; passadiços e praias fluviais no rio Ocreza - no "moinho do Pisco" ou na foz da Líria. A nível cultural e religioso "desafio" a Junta de Freguesia, a juventude e toda a comunidade a reunirem forças e vontades no sentido de criar grupos corais e de revitalizar algumas festividades tradicionais que eram parte - talvez a parte maior e melhor - da nossa autenticidade e da nossa identidade. Em terras de tanta fé e com tão belas vozes, não entendo porque nos conformamos com tantos silêncios e passos perdidos! Não sei se alguém ainda me levará a sério. Pouco me importa, ao menos caminho - enquanto caminhar - de consciência tranquila arrimado ao amor pela nossa "primeira pátria", na esperança de que a protejam e nunca a deixem morrer. Aqui nada nos falta, a não ser pessoas. Tantas pessoas que conheci, tantas pessoas que já perdemos em tantos rastos, em tantos nomes! Somos poucos e cada vez mais velhos, ainda somos muitos graças aos "citadinos" que regressam e aos "estrangeiros" que nos procuram. Compete a quem manda, compete à Junta de Freguesia ter força, ter brio e imaginação para atrair e chamar novos e bons povoadores! Assim se exerce o poder democrático. Assim se faz a história, assim se alcança o futuro, assim se vive a vida…

Deixo as Sarzedas e vou para Coimbra - cidade dos "amores cantados e das despedidas eternas", conforme alguém escreveu -, onde a história e a vida sempre acontecem, em grandes e inesquecíveis momentos. Lembrei-me daquela serenata, inserida na "festa das latas", que tantos ecos e emoções desencadeou. Na madrugada de 1 de Outubro de 2025, na escadaria da Sé Nova, ouviram-se pela primeira vez doces vozes femininas. Disseram-me os nomes das cantadeiras que bem merecem ser assinalados e que ficam para a posteridade: Constança Peixoto, prima da Maria Antónia, e Tânia Fonseca. Ainda que ausente ou longe de Coimbra, em Coimbra sempre me vejo e sinto. Quem foi estudante na Universidade, estudante ficou para toda a vida! Em muitas das minhas viagens, tomo por companhia as guitarras e os fados de Coimbra, alguns deles tão antigos e tão próximos dos últimos capítulos da minha vida: "Há quem diga que quem chora/ Traz de luto o coração/ Mas quem tem luto alivia/ Quem tem penas é que não"// "Olhos tristes como os meus/ No mundo ninguém os tem"...Se souberes, diz-me onde perdi ou deixei a minha capa velhinha…

COMENTÁRIOS

JMarques
Este ano
A passividade e a inação são muito melhores.
Quanto às conversas dos candidatos a autarcas, não passam de conversa para boi dormir.